segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pavia

A Itália é exatamente como eu imaginava. Chegar à Pavia de onibus foi muito especial. Vimos os lugarezinhos bucólicos à beira do rio, as casas antigas e as ruas estreitas, o charme das cidades pequenas é inigualável. Senti-me nos bastidores de um filme de Fellini.

A primeira surpresa ao encontrarmos Antonio, ou melhor: a primeira depois do seu look tcheco, é que ele era gago. Vamos ao quadro: Eu não falo italiano. Nadinha. Niente. Nos comunicávamos, teoricamente, em ingles, ambos com sotaque carregadíssimo. A gagueira era um toque sutil e complicador, e totalmente dispensável, devo acrescentar. Cada frase levava uns 5 minutos para ser concluída. Uma tortura. 


Não sei se alguns de vocês tem ou teve um amigo gago. O grande problema é o seguinte: todo mundo tenta adivinhar o que eles querem dizer pra ver se terminam a frase mais rápido. Pode dizer que não, mas TODO mundo faz isso. É orgânico. Não tem como evitar. Agora pense na dificuldade de se fazer isso, por puro "vício", quando na verdade você precisa exercitar seu conhecimento do vocabulário da língua inglesa. O diálogo é caótico:
Antonio: "I'll show you a a a a..."*. Eu: "a church! a place! a museum!"** Lógico que isso só piorava a circunstância. Depois do tempo já previsto, 5 minutos, o Antonio terminava a frase "a....round"***.
Ai, meu Deus... o jantar ia ser loooongo.
Pavia e suas lindas pontes cobertas.





Antonio, ou Poppo como eu o chamava (o codinome dele no site de amizade era Poppo, porque o animal favorito dele era o hipopótamo..vai entender) levou-nos para sua casa, um prédio de dois andares, construção antiga, entrada pela lateral, igualzinha a casa de meus avós, no Rio de Janeiro. Mostrou-nos o quarto onde ficaríamos, nos deu toalhas limpas, avisou que o jantar seria servido em 30 minutos e que daria tempo de nos instalarmos... parecia o concierge de um hotel de luxo. 

Após deixarmos as malas no quarto e tomarmos um bom banho fomos à cozinha e vimos a mesa posta, uma garrafa de vinho, taças e.. dois pratos! Isso mesmo: dois! Mas o que houve? Foi a pergunta óbvia. E a resposta: Poppo estava indo se encontrar com a família na casa de praia deles, em Levanto, e não poderia nos fazer companhia. Silêncio. Nós, atônitas, ficamos ali olhando pra ele como burros para um castelo. Não me vinha nada a dizer naquele momento. Nem nos momentos seguintes.


Parque de Milão - um dos muitos passseios
em nossa 1ª semana em Pavia.
Mas, e aí Poppo, mais uma vez, nos surpreendeu. Pos sobre a mesa um chaveiro e disse, levando o tempo necessário para tal: "A casa é de vocês. Fiquem à vontade. Sobre a mesa vocês tem os mapas da cidade, horários de trens, programação para uma semana, e todos os passeios possíveis saindo da cidade para as cidades próximas". Inacreditável!  O homem nunca nos vira. Me conhecia há algumas semanas e mesmo assim só sabia de mim o que eu mesma havia contado. Aquele homem magro, simples, com barba desgrenhada e completamente gago estava entregando a duas estranhas as chaves de sua casa; suas memórias e tesouros, como se fossemos amigos de infância.

E tem quem duvide da lei universal do retorno ou da terceira lei de Newton.


continua...

*   "Vou mostra-lhes..."
** "Uma igreja! Um lugar! Um museu!"
***"Por aí"