segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte III

Pra descer todo santo ajuda. Todo mundo sabe disso. A volta à estação durou pouco mais de 15 minutos e chegamos lá mais cedo do que imaginávamos. A cidade de Assis, a parte fora dos muros medievais, se desenvolveu em torno da ferrovia. Na rua em frente à estação havia algumas pequenas lojas e do outro lado da estação havia uma igreja linda com uma imagem dourada encimando a torre. Como teríamos que esperar ainda mais de uma hora pelo nosso trem, saímos a explorar o vilarejo.
A bendita estação de Assis...são tantas emoções.

Atravessamos os trilhos e fomos ver a igreja que nos chamou a atenção. Mal chegamos do outro lado, sem nada que nos alertasse sentimos os primeiro pingos de chuva. Inesperadamente o céu desabou sobre nós. Corremos até alcançar a única marquise da rua, em frente à uma pequena loja. Uma sapataria. Não uma sapataria comum, com sapatos na vitrine e vendedores desagradáveis te cercando. Uma sapataria onde se faziam sapatos. Era realmente inusitado. A marquise era minúscula, mas para quem enfrenta um dilúvio era uma verdadeira benção. Estávamos lá há pouco mais de 1 minuto, se tanto,  nos espremendo uma na outra para aproveitar o espaço, quando a porta da loja se abre. Para nossa surpresa surge a figura mais bizarra que tivemos a chance de ver até então, durante a viagem: o sapateiro. Um típico sapateiro italiano. O homem era baixo, bem mais baixo que eu, tinha o cabelo totalmente grisalho e ensebado; usava uma galocha imunda e um avental de borracha, que acredito deva ter sido branco num passado bem distante. O rosto, os braços e as mãos absolutamente imundos. Graxa da cabeça aos pés. Ele sorriu e desatou a falar num italiano acelerado e incompreensível (como se o fato de falar devagar pudesse trazer algum alento para nós..haha.). Ele repetia a mesma frase e gesticulava loucamente. Vendo que não entendíamos nada, subitamente parou de falar, me pegou pelo braço e me puxou pra dentro da loja; a Deda agarrada em meu outro braço.
Parecia que tínhamos entrado em um universo paralelo. Nunca poderia imaginar que uma fachada tão pequena e inexpressiva pudesse ser a porta de entrada para algo com tamanha dimensão. Era como a entrada para a bat caverna. O lugar era enorme. Haviam sapatos espalhados por todo lado. Couro curtindo, pendurado nas paredes e nos varais improvisados (pelo menos é o que parecia), tanques de tinta e graxa. Muita graxa, por todo lado. Na parede, calendários antigos cheios de anotações, marcas e ...graxa.
Ele puxou um banco e apontou para que sentássemos. Os gestos amistosos e exagerados dispensavam palavras: ele só queria nos tirar da chuva e ser gentil. Pobre homem. Ele não imaginava que ao nos fazer entrar em seu local de trabalho, estava expondo a Deda a um circo dos horrores. Eu, rendida pela gentileza do homem, sentei-me no banco oferecido. Seu sorriso tornava a oferta irrecusável. Bem, pelo menos para mim. Quando o homem puxou outro banco de couro, com a graxa já entranhada nas fibras, e ofereceu à Deda, ela olhou pra mim. Os olhos arregalados e aterrorizados, o sorriso no rosto tentando esconder o desespero e me disse entre os dentes “pelo amor de Deus diz a ele que não vou sentar”. Eu confesso que apesar de estar com pena dela, custei a segurar o riso. Eu tentei dizer a ele, mas ele não aceitava um não como resposta. E enquanto puxava o banco esticou o braço e alcançou-a, fazendo com que ela se sentasse. Deda tremia, olhava aquela mão negra no braço dela e parecia não acreditar. O corpo rijo sentado no banco com se fora uma cadeira elétrica. As mãos sobre os joelhos e o sorriso congelado no rosto não conseguiam disfarçar o terror em seu olhar. Eu não consegui segurar o riso. Nem tentava mais. O homem achando que eu estava rindo PARA ele e não da situação. Ainda sorrindo, apontou os calendários na parede e disse “Brasil, Brasil”. Abriu uma gaveta e mostrou-nos a foto de uma moça muito bonita. A foto já meio amassada era tratada como um tesouro. Ele mostrava, beijava e repetia: “mia figlia, mia figlia. Vive in Brasile. Bahia”. Não tinha como não entender, né? Então ficamos naquele papo de loucos. “Ahh sua filha. Bonita. Brasil. Legal!”.” Si, Si”, repetia o homem, animadíssimo. Lá fora a chuva finalmente parecia diminuir. Deda me olhava  em desespero e continuava a falar entre os dentes: “Vamos embora, pelo amor de Deus”,  repetia. Eu me levantei e disse em meu perfeito italiano, “Andiamo al treno”. O sorriso do homem desapareceu, mas ele sabia que tínhamos que ir. Agradecemos e eu estiquei a mão para cumprimentá-lo. Ele puxou minha mão e me deu dois beijos estalados, um em cada bochecha. Deda imediatamente saiu em fuga discreta em direção à porta, mas não conseguiu fugir de seu destino. O pobre velho puxou-a para si e ao tentar dar os dois beijos no capricho ela se esquivou, discretamente (segundo ela) e ele acabou beijando sua testa. Infelizmente para ela, ele estava muito empolgado e depois de marcar sua testa com a mais pura saliva italiana ele se afasta, mas não muito, e demora alguns instantes até que se dá conta: um pequeno fio de saliva grossa se estendeu e eu pensei que Deda fosse desmaiar! Aquela baba nojenta unindo-a ao simpático e imundo sapateiro por fração de segundo parecia paralisá-la. Até que ele percebeu que, apesar de muito sutil, o fio não se desfaria com tanta facilidade, e meteu o mãozão negro desvencilhando-se da baba desconcertante. O pior foi ver o restinho daquele fio quase imperceptível se descolar da mão engraxada e criar uma linha úmida no rosto de minha amiga. Ela levou a mão à boca desesperada, mas não quis limpar o rosto com receio de ofender nosso estranho anfitrião.
Saímos correndo dali e eu não conseguia, e nem tentava, segurar o riso. Débora retirou um lencinho do bolso e esfregou freneticamente a testa, que quase mudou de cor. Mais adiante parou, comprou uma garrafa de água e passou a limpar o rosto com o lencinho umedecido em água mineral. Segundo ela, nem mesmo toda aquela lavação consegui diminuir a sensação da saliva em seu rosto. Desculpe-me amiga se estiver lendo isso..mas foi HILÁRIO!
Chegamos à estação às 5:50h e havia um trem parado, já esperando pelos passageiros. Que sorte! Pensamos.
Não poderíamos estar mais enganadas...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte II

Vergonha é roubar e não conseguir carregar. Já ouviram isso?? BALELA! Vergonha é fazer xixi em praça pública e não ter como se enfiar num buraco. Minha sorte (se é que se possa usar o termo numa situação como essa) é que eu estava de saia e fora minha sandalinha de couro ensopada, nada mais denunciava o vexame arrasador. 

Quando finalmente a tsunami passou só me restava tentar resgatar a dignidade perdida. Nessa hora a pequena fonte do outro lado da praça foi um alento. Todo mundo que passava refrescava-se jogando água no rosto, nos braços, e alguns só faltavam mergulhar na bendita. Sem nenhum constrangimento (já havia gasto todo ele momentos antes) tirei o o lenço que estava em meu pescoço molhei na água gelada e passei nas pernas (não dava para passar em nenhuma outra parte do corpo por motivos óbvios).  Só faltei me jogar dentro d`água.

O lado bom de pagar um mico de tamanha proporção é que depois dele não existe mais nenhuma urgência. Maravilhosa a sensação de caminhar despreocupada e sem pressa. Após atravessarmos a praça, de volta à calçada da vergonha, viramos a esquina e...lá estava ele: o banheiro público! Lindo, espaçoso e limpo. Miserável!. Eu e Débora nos olhamos. Palavras eram desnecessárias. Entramos. Juntei todo o papel toalha que consegui e depois de praticamente tomar um banho, lavei minha roupa. Isso mesmo, lavei a roupa. Quem diz que roupa suja se lava em casa nunca passou por uma situação de “emergência real” como a que eu havia passado. Foi libertador poder lavar tudo, torcer e esperar secar antes de sair de lá. Eu estava novinha em folha. Como um bebê depois de ter sua fralda trocada por uma nova e sequinha.

Saímos e começamos nossa caminhada de volta à Estação. Passava pouco das 4:30 h e nosso trem de volta à Roma sairia às 6h.

Antes de continuar, preciso contar a vocês um pouco mais sobre a Débora, afinal estaremos juntas ainda por uma longa parte dessa jornada. Eu e Débora, a Deda, nos conhecemos na faculdade, no curso de estatística da UERJ. Viajamos juntas algumas vezes para a Bahia,  onde o pai dela tem uma casa. Ela é uma pessoa light, ótima companhia e muito engraçada, mas uma das facetas mais características dela é a mania de limpeza. Ela limpa a mão toda hora, não senta no chão ou em nenhum outro lugar sem antes por um lencinho ou passar um paninho. Morre de nojo de locais que não estejam impecavelmente limpos. Organiza tudo, mas tudo mesmo, não importa onde esteja. Viajamos juntas por quase dois meses e em cada lugar que ficávamos ela refazia a mala umas 10 vezes. Dobrava, enrolava e relocava tudo, todos os dias. Era a terapia dela. Se estivesse sujo ou bagunçado, ela limpava e arrumava. Se não pudesse limpar ou arrumar, fugia correndo dali. Depois de alguns dias observando a neurose dela em fazer e refazer as malas e limpar as coisas, eu me acostumei, e já achava até engraçado. 

Bem, dito isso, continuemos a caminho da estação. 


continua...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte I

Pouco antes de viajar para a Itália eu havia lido a biografia de Francisco de Assis. A história de renúncia do jovem rico que abandona a vida burguesa e vai viver com os pobres e se dedicar a transmitir ensinamentos de amor, me encantou. Por isso, quando soubemos que Assis ficava apenas à 200km de Roma nem pensamos duas vezes. Lá fomos nós ao Termini comprar nossa passagem de trem para o dia seguinte. Saber a hora da viagem e já ter o bilhete de volta comprado nos deixava mais à vontade para curtir o passeio sem mais preocupações.
No dia seguinte lá estávamos nós, cedinho, no Termini. Como iríamos passar apenas 10 horas fora de casa (de 8h às 18h) e pretendíamos andar muito, não levamos nada nas mãos além de uma sacola com uma garrafa d'água e dois sanduíches. Débora levou no bolso algum dinheiro para o almoço e nossas passagens de volta. O calor senegalês não impediria nossa empreitada.
A viagem de 2 horas de trem foi perfeita. O trem cortava a linda região da Umbria, com paisagens de tirar o fôlego. Chegamos à estação e nada nos lembrava as imagens que tínhamos visto da cidade. Foi quando descobrimos que, na verdade, a cidade de Assis ficava no alto da montanha bem atrás de nós. A visão era deslumbrante.  Inacreditável que tenham conseguido manter toda a atmosfera medieval da cidade. A Basílica podia ser vista de muito longe. As ruas eram de pedra, a subida, à pé ou num pequeno e único ônibus, era íngreme e interminável. Diferente de tantas outras cidades onde há romarias religiosas, os visitantes de Assis eram, em sua grande maioria, jovens. Todos desceram do trem e começaram a vencer a distância até o alto, à pé. Animadas, lá fomos nós, seguindo o grupo.
Paisagem na janela..do trem.
A Umbria é uma das regiões mais belas da Itália.


Chegar lá em cima era um feito heróico. Parecia o cenário de um filme de época. Centenas de turistas seguiam quase que em fila indiana para entrar na igreja. Nos arredores pequenas casas feitas de pedra vendiam souvenirs e quinquilharias. Por algum motivo que desconheço, o grande “lance” da cidade eram os sinos.  As lojas tinham em sua entrada dezenas deles. Todos os tipos e tamanhos. Os sons se misturavam ao falatório, e todo mundo “testava” o sino antes de comprar (ou mesmo quando não tinha intenção de comprá-los dava a sua badalada..rs). A confusão era total, mas parecia fazer parte da rotina do povo de lá. Ninguém ligava praquele blem blem blem contínuo.
No alto da colina, Assis. Irretocada, desde a Idade Média.


Andamos a manhã toda, comemos os sanduíches que tínhamos levado e continuamos explorando as ruelas da cidade até que, por volta das 4 da tarde, o inevitável aconteceu. Eu precisava fazer xixi (bem, eu poderia ter dito alguns eufemismos básicos e politicamente corretos, mas nada como a objetividade). Como a cidade não tinha um padrão comercial convencional, ou seja nem um Mc Donalds por perto, começamos a procurar um banheiro público (existem muitos na Itália, graças a antiga prática das casas de banho  na antiguidade). Subimos, descemos, viramos e ..nada. Perguntamos, pedimos, jogamos charme e... nem um peniquinho sequer. Todos nós sabemos que a vontade de ir ao banheiro tem algumas etapas básicas:
- a primeira é super tranqüila. Você pensa “melhor procurar um banheiro, só por desencargo de consciência”... a vontade nem é tão grande mas melhor prevenir do que remediar.
- depois de um tempo procurando um banheiro você já começa a se culpar: “porque eu fui beber água hoje? Não podia ter comido aquele sanduíche a seco?”. A vontade aumentou um pouco mas você ainda está conseguindo raciocinar.
- depois de 45 minutos procurando um banheiro limpo você se dá conta que isso é luxo e pensa “qualquer latrina serve, só preciso de um local com paredes e um buraco no chão”. Esta etapa é o limiar entre a decência e o total desespero. A partir daí você começa a lembrar de tudo o que bebeu nas últimas 24h.
- e finalmente: O horror! O horror! essa é a fase em que pensar já é um problema. Você amaldiçoa até o descongestionante que pingou no nariz. Já está andando meio de lado e quando pára pra pedir informação já não consegue ficar parado. É uma mistura de dança com convulsão nervosa. Já viu alguém com muita, mas muita vontade de ir ao banheiro pedindo informação na hora de total desespero? É impossível manter as mãos paradas. A gente mexe os dedos, tira o peso do corpo de um pé e põe no outro, tenta se concentrar no que está falando mas só pensa em achar um banheiro, que nem precisa ser limpo. Fica rezando inconscientemente pra ouvir o interlocutor dizer “Si. Si. Si!”, na hora em que você pergunta se ele sabe de algum banheiro, e quando ouve o “No” (som quase universal que significa “você está fu$%@#!”) tem vontade de chorar.
Bom, a etapa anterior é a última chance que você tem de sair dessa situação com dignidade.
Antes de continuar, um adendo importantíssimo: Na Itália a cada esquina que você passa tem uma fonte. Cada lugar onde se cavou procurando uma ruína histórica, achou-se um foco de água limpa e cristalina. Não é brincadeira. Agora imagine: você está nos estertores do controle muscular de sua bexiga e precisa caminhar por entre fontes, laguinhos e chafarizes; e todos, TODOS fazendo aquele barulhinho típico... de fontes, laguinhos e chafarizes. Uma verdadeira tortura chinesa, ou italiana.
Estamos nós andando, quase correndo, em nossa busca frenética quando passamos por uma praça. Linda, cheia de fontes borbulhantes e ..lojinhas de venda de sino. Eu já nem conseguia falar. A impressão que eu tinha é que se eu usasse meu cérebro para qualquer atividade que não fosse o controle total de minha bexiga, eu sucumbiria. Já estava na fase da dor e da agonia absoluta. E foi aí que surgiu na Débora o desejo doentio e incontido de ...tocar um sino. Eu não conseguia acreditar, eu em plena agonia e ela queria parar e tocar um sino. Eu pedi, supliquei mas nada conseguia demove-la da idéia de jirico. Ela dizia “só um pequenininho. Um instantinho só”. E sem esperar qualquer acolhimento de minha parte, parou em frente a loja e meteu a mão no balado. O sino era o menor ali exposto. Pequeno mesmo. Um palmo de sino. Mas quando ela o tocou o som reverberou  imponente e repetitivo praça afora, tão alto quanto um sino de catedral em dia de missa.
Não bastasse a vergonha de chamar para si toda a atenção, ela olha pra mim e faz a única coisa que não poderia ter feito: Desaba em gargalhadas. Uma crise de riso dantesca.  Eu juro que tentei. Tentei não rir, tentei pensar em outra coisa, tentei olhar pro outro lado... Acho que foi o barulhinho da fonte. Toda a minha força de vontade em tentar evitar o mico foi em vão.
Era tarde demais. Já não tinha controle algum. Era absolutamente involuntário. Nunca pensei que coubesse tanto líquido dentro do corpo humano. Juro. Eu queria parar e não conseguia. Eu olhava e não acreditava. Nem parecia que era eu a responsável por aquele derrame ladeira abaixo. Acredito que deva ter sido algum tipo de experiência extra-corpórea. Só pode ser. A Débora olhava pra mim com os olhos arregalados e repetia freneticamente, tentando em vão manter a voz baixa: Para! Para! Para!.. Repetia ela entre os dentes.
Ahhh se eu pudesse....
...continua


domingo, 6 de novembro de 2011

Veni, vidi, vici!

Inspiradas por Julio Cesar, o mais famoso dos romanos, lá fomos nós com o espírito dos antigos generais: Veni, vidi, vici*! Saímos a conquistar a milenar Roma. Afinal de contas, tínhamos todas as armas necessárias: o charme brasileiro, o sotaque encantador... e minissaias incríveis! rs Sim, sras e srs... Minissaias! Porque apesar do que vocês veem hoje, eu já tive um grande futuro no meu passado.
Viu só?? Eu te disse. A minissaia era mesmo incrível!
Nem mesmo eu acredito que usei aquilo.rs

Roma é deslumbrante. Um banho de história e civilização. A Praça Navona, a Fontana de Trevi, a Praça D'Espanha, o Coliseu, as ruínas, a Vila Borguese, o Círculo Máximo, o Forum e, é claro, o Vaticano. Tanta coisa para conhecer ver e tão pouco tempo. Acho que dá pra passar um ano em Roma visitando um local diferente todo dia. E gente..Ô povo lindo! Não dá pra imaginar ficar um ano naquele lugar e não sucumbir ao pecado. Um ano?? UM MES! Só mesmo a heroína de "Comer, Rezar e Amar" (e cá entre nós, DUVIDO que ela tenha se mantido imune ao charme italiano). Aquela que nunca babou por um Carabiniere* que atire a primeira pedra.
E por falar em beleza italiana, nossa primeira incursão ao mundo maravilhoso dos homens belos foi durante o passeio à Vila Borguese.
Andamos por horas naquele lugar. Tudo era lindo e absolutamente deslumbrante. Depois de entrarmos e sairmos de jardins e lagos, de abraçarmos árvores e tirarmos fotos em pequenas pontes a óbvia e desesperada constatação: estávamos totalmente perdidas! Mas nem sombra de saber por onde ir. O desespero já começava a tirar o sorriso do nosso rosto quando avistamos um carro da polícia em uma das vias dentro da Vila. Aleluia! Lá vamos nós, já ensaiando nossas frases italianas perfeitas para a ocasião. Tínhamos tudo na ponta da língua. Era chegar e despejar nosso sotaque no carabinieri. E até que começamos bem:
_ Buon giorno, signore. Scusi...Ai que orgulho, e com sotaque caprichado. Tudo dando certo e então, o inesperado: o homem, que conversava alegremente com sua parceira policial, vira e nos encara:
_ Buon giorno, como posso aiutare? 
Silêncio. Silêncio profundo (som de grilos estridulando). Durou uns 5 segundos, mas eu juro que pareciam duas horas e meia.
Eu e Débora, mudas. A boca meio aberta, tipo boneco de ventríloquo; o queixo levemente caído; os olhos totalmente hipnotizados por aquela visão. Sim, amigos, uma visão! Eu poderia jurar que o homem se movia em câmera lenta e com fundo musical.  Eu nunca imaginei que os deuses da mitologia romana tivessem herdeiros vivos àquela altura. Mas tinham. E ele estava ali. Um deus! Os lábios se abriram mostrando dentes lindos, brancos e bem alinhados. O cabelo negro, farto e liso. Olhos verdes como o Mar Egeu. A voz profunda nos paralisou. Aquele homem não nasceu, foi esculpido. Deve ter mau hálito, pensei. Ninguém pode ser tão perfeito.
O Vaticano. Imponente, luxuoso..uma afronta!

E aí, como era de se esperar, nossas frases italianas perfeitas simplesmente desapareceram de nosso córtex cerebral. Como se tivéssemos sido ligadas em algum aparelho elétrico, subitamente, eu e minha fiel escudeira desatamos a falar. Alto e ao mesmo tempo. Uma verborragia insana e incompreensível. Só depois nos demos conta que falávamos em português.
_"Nós nos perdemos...", "Por favor seu guarda", ..."precisamos sair daqui...". As frases desencontradas não tinham o menor sentido. Nem mesmo se o pobre homem (deus) entendesse português conseguiria decifrar aquilo. Mas, com todo deus que se preze, ele sorriu mais uma vez. Nos olhos a compreensão de quem estava acostumado a estarrecer muitas fêmeas desavisadas. Ele aponta para o norte e meneia a cabeça nos mostrando a direção a seguir. Mudo. Impassível e desconcertantemente belo.
_ Grazie, grazie, grazie. Repetíamos constrangidas.
Andamos na direção indicada. Em silêncio por um tempo que pareceu longo demais. Braços dados, andar acelerado com duas irmãs Cajazeira. E então.. desandamos a rir como loucas, como se finalmente nos déssemos conta do ridículo que tínhamos acabado de passar. Rimos de chorar, de doer a barriga.
A conquista assegurada. Roma era nossa! Alguém duvida? rs

Entramos no ônibus ainda sem nos olhar, pois toda vez que o fazíamos caíamos na gargalhada.
No disc man a música começou a tocar: "Só as cachorras! As preparadas.." Quem diria... Duas cariocas espertas, cheias de GSI*, fazer um papelão desses.. Longe, muito longe de estarem preparadas.
Ô vergonha!

* Veni, vidi, vici! - Vim, vi, venci!
* Carabinieri - policiais italianos
* GSI -  Jogo de cintura escroto! rs

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Um pouco mais pra baixo...

Era o ano das "cachorras". E no meu disc man eu ouvia o bendito funk o tempo todo. Nada como um som pra distrair quando se fica uma hora dentro de um trem. Mas não era a única loucura que eu fazia.
O Brasil tinha acabado de ser penta campeão de futebol e, claro, eu usava uma camiseta do Brasil sempre que fazia uma longa viagem de trem. No início era só de provocação mesmo. Sacanagem purinha. Em algumas semanas era mais uma forma de matar as saudades de casa.
As "cachorras" e o Bonde do Tigrão, do Rio de Janeiro para Florença.
Duas balzaquianas ensinando a meninada toda do albergue a dançar. Foi demais!
A aventura estava apenas começando. Andamos de gôndola em Veneza, dançamos que nem criança com as meninas do albergue em Pádua, viajamos de ônibus sem pagar em Florença, assistimos ao Palio em Siena torcendo pelo cavaleiro mais bonito (como se entendêssemos o que estava acontecendo)... Fomos turistas adolescentes no País das Maravilhas. Aquelas tres semanas mudaram nossa vida. E aí.. bem, aí... seguimos para Roma. Bem mais pra baixo, no centro-sul da Itália.
Naquele ano já se falava que Veneza estava afundando.
Bem, melhor aproveitar enquanto podíamos, né?

Roma. Até o nome nos faz viajar no tempo. Em Roma nosso destino tinha sido traçado um mês antes. Da mesma forma que me lancei em busca de informações de Milão antes de chegar lá, tentei descobrir o melhor lugar para nos instalarmos na capital.
Eu sabia que havia um escritório brasileiro para assuntos de aviação em Roma, perguntei a um de meus colegas que trabalham no escritório daqui e consegui o telefone do escritório italiano. Beleza! Agora era ligar e descobrir se tinham alguma dica sobre onde eu poderia ficar.
Na primeira tentativa me atende um senhor que tenta de várias formas ajudar. Mas só conhece hotéis 5 estrelas, totalmente fora, digamos, de minha faixa de preços. Ele pede que eu retorne a ligação mais tarde e converse com o suboficial que estava lá há mais tempo. Eu ligo e...mais uma vez lá vem a lei universal do retorno. O suboficial conversa comigo 2 minutos e dispara "eu sei quem você é! Já a vi nos corredores aí em Brasília. Você nao vai para hotel nenhum, vem ficar conosco em minha casa."
Em Florença, na Loggia dei Lanzzi, as obras de Michelângelo e
Gianbologna ficam expostas  pra quem quiser ver.
É a cultura italiana nas ruas, sem que ninguém precise pagar por isso. Incrível!

Encurtando essa parte da história, quase dois meses depois lá estou eu e Débora, chegando ao Termini, o terminal  ferroviário em Roma, sendo recebidas pelo nosso novo velho amigo, Otavio, sua esposa e os 3 filhos.  A família interrompeu as férias e viajou de volta à Roma só para nos recepcionar. Espremidos com metades de pessego numa lata cheia de calda, lá fomos nós para nossa casa romana.
Gente eu tentei, juro. mas ela continuou torta.
Ver a Torre de Pizza foi irreal,
parecia cena de desenho animado.

Otávio nos mostra os arredores, nos leva à sua casa e, inacreditavelmente, assim como nosso amigo Antonio, de Pavia, nos entrega as chaves da casa para em seguida voltar às suas férias no litoral à 2 horas dali.

E foi assim. Roma era nossa!!

... continua.