quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A saga das cordornas.. epílogo.



Por um instante eu fiquei ali, andando à uma certa distância do Santosh, observando a atitude das pessoas que passavam por nós. Todos, sem exceção, paravam pra nos olhar. Um indiano ao lado de uma ocidental, andando como se fossem velhos amigos e conversando como pessoas normais. As mulheres que transitavam apressadas usavam sári e estavam todas cobertas. Eu usava uma bermuda jeans e uma blusa de alcinhas finas, que não ousaria ostentar se não estivesse acompanhada pelo Santosh. O calor beirava o insuportável. Eu olhava as pessoas espremidas em ônibus imundos e lotados e pensava em todas as coisas das quais eu costumava reclamar. Me senti a mais ingrata das criaturas e comecei a agradecer, ali mesmo, a tudo e a todos que me cercam. De repente me vejo ali, diante de tanta gente que vive em condições muito piores que as nossas. Que sociedade estranha e diferente. Haja choque cultural... 

Antes de irmos pra casa lembrei do abençoado creme de leite. Como fazer strogonof de codorna sem creme de leite? Tentei explicar ao Santosh o que eu queria, já que tentar dizer creme de leite sem que ele pensasse que eu queria chantilly, tornou-se quase impossível. Whipped Cream e whipped Milk foi o mais perto que consegui chegar; Sim, porque “Milk cream” não existe rs Mas como não rolou, então achei melhor desbravar algum mercado local atrás da famosa e conhecida latinha. Entramos numa birosca que, segundo o Santosh, era minha única esperança. Uma “importadora”!! AHÁ! Minha salvação! Bem, isso eu achava, até tentar localizar o meu creme de leite. O mais conhecido dos artigos importados era um vidro de Nescafé solúvel, o que já foi um achado naquelas circunstâncias e, por isso mesmo, comprei sem hesitar. Vai que fosse a nossa única chance de tomar algo parecido com café. Mas depois de árdua busca a triste realidade: nada de creme de leite. Saio eu da tal birosca importadora com um vidro de Nescafé Solúvel e uma garrafa de leite com 80% de gordura... integral até mergulhado em água!! Rs vai ter que servir; pelo menos é gorduroso, né?

Chegamos de volta ao apartamento umas 3 horas depois. Encontramos a Deda varrendo a sala, os móveis todos fora do lugar e as cadeiras em cima da mesa. Isso sim é uma faxina!! O cheiro de limpeza dava outro aspecto ao refúgio indiano. E, acreditem se quiserem: a Deda conseguiu lavar, inclusive, o escorredor de pratos e cada um dos mil talheres que estavam lá, “secando”, há dois mil de anos. Tenho certeza de que foram usados na Santa Ceia.
Diferente do que qualquer um poderia imaginar, não estávamos cansadas. Pelo contrário. Nosso pique era invejável. Depois de limpar por 3 horas aquela caverna, a Débora estava mais cheia de energia do que quando acordamos pela manhã. Eu tinha andando por mais de 3 horas naquele calorão e me sentia revigorada. Ansiedade por estar na Índia, imaginava eu. Comecei a fazer o strogonof e fiquei feliz por ver os talheres todos limpos e a pia “utilizável” depois de muito sabão e disposição da Débora, é claro. 

O Santosh disse que a comida estava boa, mas dispensaria o tal “creme de leite” e comeria só o frango com a cebola e os tomates. Aí não seria strogonof, seria picadinho de frango, né, GÊNIO?!! Enfim, comidos e bebidos, vamos à rua, porque isso é Índia e nós  temos MUITO que ver!

Infelizmente, para o bom andamento da história, e felizmente para o bom andamento da minha saúde mental, amanhã saio de férias. Merecidas e muito aguardadas. Por isso amados e pacientes leitores do meu coração, espero que todos  mantenham a curiosidade e a leitura em dia, pois assim que voltar eu continuo com a saga e as aventuras das duas cariocas em terras indianas. Paz e saúde pra todos vocês e até a volta!!! #partiu (<- ODEIO isso rs rs)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Strogonof de... codorna?!

Ao sair na rua senti o bafo quente do calor indiano, seco e infinitamente mais abafado do que o ar fresco da madrugada, quando chegamos. Nem quero saber quantos graus faz. O psicológico pode me afetar, penso.

Antes de mais delongas, um detalhe muito importante, meu queridos amigos leitores: Para comer alguma coisa na Índia é necessário, primeiramente, que a fome esteja acompanhada de uma boa dose de coragem. E das grandes! O lugar é tão sujo e tão cheio de gente que desanima o mais faminto dos peregrinos. O cheiro de curry parece ter sido usado como um “Bom Ar” urbano. Dito isso, prossigamos...

Andamos um bom tempo no meio do povaréu suado e apressado e não vi um só supermercado. Supermercado? Ok, vou simplificar: não vi um só mercado, quitanda, vendinha.. nada. Pergunto ao Santosh se o mercado ainda está longe e ele responde: “estamos quase lá”. De repente, depois de uma das 356 esquinas deparo-me com a maior feira ao ar livre que já vi. Espalhados por todo o lado estavam panos, colocados no chão, contendo os legumes e verduras vendidos pelos produtores locais. Mas eu não conseguia reconhecer nenhum deles. Nada me parecia familiar. E foi então que observei um detalhe: os legumes, vegetais e verduras eram os mesmos que eu conhecia, mas muito menores que os que eu já tinha visto. A cebola era do tamanho de um limão. As batatas então eram ainda menores. O solo aqui não deve ajudar, pensei. Mas eu precisava de cebolas, e de tomates e de um monte outras coisas. Eu queria fazer um strogonof. Definitivamente, eu não iria comer nada que não tivesse sido preparado por mim. E não cozinharia nada que não tivesse sido lavado umas mil vezes. Isso era certo. 

Escolhidas as miudezas, eu precisava do peito de frango. Aviso ao meu guia/amigo/nativo e ele me leva ao local onde são vendidas as carnes (não a de vaca, é claro). Eu espero na fila, de umas 8 ou 9 pessoas (tudo na Índia tem fila) e quando chega a minha vez pergunto pelo “chicken breast”*. O homem me aponta umas carninhas muito brancas e pequeninas e eu olho para ele como se explicasse um problema matemático a um analfabeto: “I need chicken breasts”*. Ele aponta pras tais carninhas sem-graça e fala algo que não consigo compreender (será híndi?). “Not quails, I need chicken*”, repito quase gritando (vai ver ele não me ouvia bem no meio daquela balbúrdia toda, penso). Santosh se mete no papo, já irritado com a demora. Fala algo em híndi e o cara embrulha duas das tais carninhas sem-graça. Eu me viro pro Santosh já nervosa e repito mais uma vez que não quero codornas, preciso de peito de frango! Ele olha pra mim e, para minha surpresa, diz que aquilo era peito de frango, e não existiam maiores que aqueles! Que diabo de galinha é essa?! Penso..mas não falo. E continua..”what´s quail?!”. Sabe quando leva um tempo para você processar uma informação? Eu fiquei ali parada, olhando pra ele, tentando achar uma forma de dizer a ele tudo o que se passava na minha cabeça: 
Primeiro - que aquilo não PODIA ser peito de frango, era pequeno demais; 

Segundo - que se aquilo realmente era peito de frango, eu iria precisar de uns 10, para fazer o almoço de três pessoas; 

Terceiro - como diabo eu iria explicar a ele o que era uma codorna?! 

Depois de árdua batalha pelos 10 peitos de frango (disfarçado de codorna), e os minúsculos legumes, fizemos todo o caminho de volta ao apartamento. Ele ansioso por provar o tal “strogonof”, e eu rezando pra Débora ter terminado a faxina, assim eu não teria que me aventurar na terra do mofo adormecido.

*Chicken breast – peito de frango
*I need chicken breasts – Eu preciso de peitos de frango
*Not quails, I need chicken – Codornas não, preciso de frango