Passado o trauma (e comprado o carro..êêêê:) continuemos ...
Ainda atordoada de tanta emoção, saí do Caesars pisando nas nuvens. Mesmo sabendo que os indianos não são muito chegados a contato físico, fui logo abraçando o Lucky - que ficou todo sem graça - e falando sem parar do melhor show que tinha visto na vida. Nem lembrava do fato de estar acordada desde as 6 da manhã e de ter atravessado mais de 1000 km de deserto dentro de um carro.
Os meninos conversavam sobre o jogo e se vangloriavam das quantias que tinham perdido. Não, eu não me enganei, não. Eles tinham perdido! E o papo era mais ou menos assim: "Eu perdi U$700 só na primeira rodada....", "Eu perdi U$1500 mas não jogo mais.. HOJE", e isso dando risada e achando maravilhoso. Fala sério. Eu não conseguia nem imaginar perder U$10 num caça-níqueis, quanto mais U$1500!!
Enfim, voltamos finalmente para o hotel lá pelas 4 da manhã. Eu só queria tomar o tal banho e desmaiar. E foi exatamente o que fiz. Quer dizer, a parte do banho, porque desmaiar foi outro problema. Saí do banho o mais depressa que pude, pois sabia que era tarde e ainda haviam mais 3 pessoas na fila (a noiva e os pais dela). Para minha surpresa, mesmo após anunciar que o banheiro estava livre - gesticulava e mostrava a porta aberta como uma louca - ninguém se mexeu. "Devem ter tomado banho antes", pensei. Cumprimentei-os, ou seja, balancei a cabeça e sorri porque ninguém iria me entender mesmo, e fui pra cama. Foi então que o Armagedon começou.
O "sogro", que só se sentava e dava ordens à esposa, finalmente colocou seu "mijão" (aquele macacão de malha com pezinho) e se deitou aguardando a mulher. Antes dela terminar seu ritual ele já havia começado o dele. Eu ouvi um estrondo, em alto e bom som, e pensei "não pode ser". Mas era. O velho iniciou uma verdadeira sessão de tortura explícita. Quem fala que tortura chinesa é cruel, nunca experimentou a tortura indiana. Jesus amado. O homem parecia ter comido um urubu em decomposição e tomado leite de magnésia para acompanhar. Soltava gases em profusão e arrotava como um porco em crise de gastrite. mas o detalhe: isso tudo com total naturalidade do mundo; eu diria até que com orgulho. Ninguém parecia se importar. Era um atrás do outro, e ele parecia se concentrar para fazer um som mais poderoso que o anterior. Contorcia-se como uma dançarina do ventre, mudava de posição e BUM! Eu dizia impropérios em português, em voz baixa e comedida, quem sabe se mesmo sem entender ele não "desconfiava" e dava um tempo para as vítimas. Eu olhava (àquela altura por uma pequena fresta entre os cobertores) para a mulher e para a filha, na esperança que alguma delas dissesse alguma coisa, chamasse a atenção do infeliz para o tormento que estava causando a terceiros.. (E O TERCEIRO ERA EU!). Mas nada. Nada. Ninguém se manifestava.
O dia raiou e os gases armazenados no quarto poderiam explodir Gomorra em segundos. Umas 3 horas haviam se passado e o homem não parou de liberar sua potente arma química nem por um minuto. Até dormindo o homem não parava. Não houve trégua. Assim que vi os primeiros raios de sol, levantei-me, pus uma roupa e saí andando ao redor do hotel. O ar frio era uma verdadeira benção. Fiquei assim, andando pra lá e pra cá, por horas. Lembro que vi o casal e a filha acordarem e sair do quarto procurando o local onde tomar o café da manhã (o hotel não fornecia refeições). Eu só olhei e meneei a cabeça. Nem sonhava em ficar ali, curtindo a companhia do Homem-Bomba e sua turba.
Esperei assim até quase meio-dia, quando os meninos acordaram e eu corri a contar pro Lucky os dissabores de minha noitada. Ele riu tanto que chorava. Muito gentil, porém, deu uma desculpa qualquer e conseguiu um quarto extra só pra mim pelos próximos 4 dias.
Bendito, Lucky!!
O cara que inventou o termo "Terror noturno" deve ter passado a noite ao lado de um velho indiano....
Essas são histórias de minhas andanças pelo mundo. Cada lugar novo é uma redescoberta de algo que eu achava que já sabia. Algumas vezes eu estava certa, outras também :) E todas são divertidas. O mundo é menor do que se imagina. As pessoas mudam de cor, de credo e de raça mas, no fundo, somos todos carunchos se acotovelando no mesmo saco de arroz. É isso. O mundo do jeito que eu vejo.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Viva Las Vegas! parte V - O melhor presente do mundo ...
Eu nunca fui muito de noitadas. Aliás, baladas, para usar uma expressão mais in. Sempre que tiro férias, e vou pra algum lugar, eu ando, ando, ando, ando o dia todo. E à noite eu reponho as energias pra andar mais no dia seguinte. Tínhamos viajado o dia todo, e minha garganta não estava me dando nenhuma trégua àquela altura do campeonato. Eu poderia dormir em pé naquela hora. Em qualquer canto daquele quarto de hotel. Juro. Mas não dormi. Nem naquela hora nem nas 5 horas seguintes.
Dez da noite e Las Vegas estava começando a acordar. E eu pensando em ir dormir. Santa ingenuidade, Batman! Deixamos as malas no quarto e, sem parar nem pra tomar banho (a explicação é que o banho tinha que ser antes de ir pra cama..-. ahhhhh, a cama...- por causa do choque térmico), lá fomos nós, o grupo mais bizarro que já vi na vida, rumo às luzes e à diversão (deles, pelo menos).
A primeira parada foi para o jantar. Tudo o que é canto de Las Vegas tem o tal do buffet. Temos a mesma coisa aqui, mas muito mais barato. Ahh e lá a gente não paga a bebida, contanto que não seja alcoólica. Eles entopem as criaturas de líquidos, na esperança de livrarem-se delas o mais rápido possível. Eu só entrei porque queria testar meu velho truque do gargarejo com água, sal e vinagre pra melhorar minha dor de garganta. Pedi uma xícara de água quente e me trouxeram chá preto. Tudo bem. Estava quente. Enchi de vinagre e sal e fui ao banheiro. Gargarejei uns 10 minutos. Já voltei outra. Doida pra compensar o tempo que passei calada.
Como eu não entendia chongas do que os novos indianos falavam, acabei criando uma espécie de sub-grupo..rs Eu e o Harpreet descobrimos que tínhamos algo em comum, além do nosso ingles sofrível: nosso senso de humor sarcástico..rs. Por isso, íamos atrás do grupo Bollywood (apelidinho carinhoso que demos) comentando as alegorias dos pobres dissidentes ( e olha que os dissidentes éramos nós..rs). Eu fazia uma espécie de dublagem do que os indianos falavam, e que eu não entendia. O Lucky ria e nem se importava em me corrigir, já que poderia facilmente traduzir literalmente tudo o que diziam. A minha, digamos, interpretação poética era muito mais divertida.
Entramos no Caesars Palace. Uma visão megabrega da ostentação. Tudo dourado e cheio de rococós. Contudo, uma Lenda do show business. Os caça-níqueis faziam um barulho absurdo. O cheiro de cigarro era forte e nauseante. Gente de toda espécie. Noivas pra todo lado. A maioria, gente e noivas, bêbada. Loucura total! O grupo parou. Alguns "atchas" e "teegas" depois Lucky me chamou e avisou: "Vamos ficar por aqui. Pegue esse cartão". Ele me deu uma espécie de cartão magnético com a logo do Caesars. "É seu presente de aniversário", disse ele. (eu iria passar meu aniversário com eles, mas ainda faltavam alguns dias pra isso). Vendo minha cara de "sim e kiko?", ele continuou.. "Vá até lá, mostre seu cartão na entrada e divirta-se. Vamos esperar aqui mesmo". O "lá" era uma porta enorme, de laca branca e frisos dourados. O "aqui" era a mesa de blackjack, o famoso 21, jogo que era a paixão dos (meus) indianos. Tá bom, pensei. E fui. Cartão em punho, e morta de curiosidade.
Mostrei o cartão. Passei pela porta e vi uma sala de shows. Enorme. No palco, um piano. Ai, meu cacete. Show do Liberace, não! Nem por amor a Dadá eu aguento. Mas ao mesmo tempo notei algo que me fez repensar minha renúncia: ninguém estava fumando ali. Ave Cesar! Ou melhor: Ave, Caesars!! :) A mesa a que fui conduzida era microscópica. Mas era só pra mim mesmo, por isso, conformei-me.
Eu olhava em volta. A mulherada de vestido longo, toda montada na griffe, (dignas de aparecer no blog da Lulis ou no livro da Danuza..rs) de salto 10 e tudo o mais. Eu, a imagem do desleixo: com meu casaco de astronauta, caça jeans Inega, e tenis Rainha (salvo do templo hindu há apenas alguns dias). Azar! Ninguém me conhece. Vai dizer que não é isso que a gente diz pra si mesmo quando não quer chorar de vergonha?
Algum tempo depois, as luzes se apagaram e a parafernália sonora anunciou: "And now, bla bla bla Caesers Palace bla bla bla Ladies and gentlemen bla bla bla"... Lá vem o Liberace, pensei. "bla bla bla bla Sir .. ELTON JOHN"!!!!!!!
continua...
Dez da noite e Las Vegas estava começando a acordar. E eu pensando em ir dormir. Santa ingenuidade, Batman! Deixamos as malas no quarto e, sem parar nem pra tomar banho (a explicação é que o banho tinha que ser antes de ir pra cama..-. ahhhhh, a cama...- por causa do choque térmico), lá fomos nós, o grupo mais bizarro que já vi na vida, rumo às luzes e à diversão (deles, pelo menos).
A primeira parada foi para o jantar. Tudo o que é canto de Las Vegas tem o tal do buffet. Temos a mesma coisa aqui, mas muito mais barato. Ahh e lá a gente não paga a bebida, contanto que não seja alcoólica. Eles entopem as criaturas de líquidos, na esperança de livrarem-se delas o mais rápido possível. Eu só entrei porque queria testar meu velho truque do gargarejo com água, sal e vinagre pra melhorar minha dor de garganta. Pedi uma xícara de água quente e me trouxeram chá preto. Tudo bem. Estava quente. Enchi de vinagre e sal e fui ao banheiro. Gargarejei uns 10 minutos. Já voltei outra. Doida pra compensar o tempo que passei calada.
Como eu não entendia chongas do que os novos indianos falavam, acabei criando uma espécie de sub-grupo..rs Eu e o Harpreet descobrimos que tínhamos algo em comum, além do nosso ingles sofrível: nosso senso de humor sarcástico..rs. Por isso, íamos atrás do grupo Bollywood (apelidinho carinhoso que demos) comentando as alegorias dos pobres dissidentes ( e olha que os dissidentes éramos nós..rs). Eu fazia uma espécie de dublagem do que os indianos falavam, e que eu não entendia. O Lucky ria e nem se importava em me corrigir, já que poderia facilmente traduzir literalmente tudo o que diziam. A minha, digamos, interpretação poética era muito mais divertida.
Entramos no Caesars Palace. Uma visão megabrega da ostentação. Tudo dourado e cheio de rococós. Contudo, uma Lenda do show business. Os caça-níqueis faziam um barulho absurdo. O cheiro de cigarro era forte e nauseante. Gente de toda espécie. Noivas pra todo lado. A maioria, gente e noivas, bêbada. Loucura total! O grupo parou. Alguns "atchas" e "teegas" depois Lucky me chamou e avisou: "Vamos ficar por aqui. Pegue esse cartão". Ele me deu uma espécie de cartão magnético com a logo do Caesars. "É seu presente de aniversário", disse ele. (eu iria passar meu aniversário com eles, mas ainda faltavam alguns dias pra isso). Vendo minha cara de "sim e kiko?", ele continuou.. "Vá até lá, mostre seu cartão na entrada e divirta-se. Vamos esperar aqui mesmo". O "lá" era uma porta enorme, de laca branca e frisos dourados. O "aqui" era a mesa de blackjack, o famoso 21, jogo que era a paixão dos (meus) indianos. Tá bom, pensei. E fui. Cartão em punho, e morta de curiosidade.
Mostrei o cartão. Passei pela porta e vi uma sala de shows. Enorme. No palco, um piano. Ai, meu cacete. Show do Liberace, não! Nem por amor a Dadá eu aguento. Mas ao mesmo tempo notei algo que me fez repensar minha renúncia: ninguém estava fumando ali. Ave Cesar! Ou melhor: Ave, Caesars!! :) A mesa a que fui conduzida era microscópica. Mas era só pra mim mesmo, por isso, conformei-me.
Eu olhava em volta. A mulherada de vestido longo, toda montada na griffe, (dignas de aparecer no blog da Lulis ou no livro da Danuza..rs) de salto 10 e tudo o mais. Eu, a imagem do desleixo: com meu casaco de astronauta, caça jeans Inega, e tenis Rainha (salvo do templo hindu há apenas alguns dias). Azar! Ninguém me conhece. Vai dizer que não é isso que a gente diz pra si mesmo quando não quer chorar de vergonha?
Algum tempo depois, as luzes se apagaram e a parafernália sonora anunciou: "And now, bla bla bla Caesers Palace bla bla bla Ladies and gentlemen bla bla bla"... Lá vem o Liberace, pensei. "bla bla bla bla Sir .. ELTON JOHN"!!!!!!!
continua...
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Viva Las Vegas! parte IV - आश्चर्य!!
Diferente e inteligível. Esse é o hindi. O idioma falado pela maioria dos indianos (digo maioria porque existem centenas de outros dialetos no país). Essa história fala do meu primeiro contato com esse curioso e exótico símbolo hindu.
Após o meu debut pela deslumbrante The Strip fomos direto para o hotel. Nada luxuoso (para os padrões de Las Vegas) mas confortável e muito bem localizado. Eu já não aguentava nem respirar, de tanta dor de garganta. Estava quieta que nem coruja. Só olhando. Na recepção o rapaz entregou um bilhete ao Harpreet, Lucky, como todos o chamavam. Ele sorriu. Disse algo em hindi ao Arun e olhou pra mim. "Teremos companhia", disse ele. O sorriso estampado no rosto bonachão parecia procurar alguém. E achou. Me estendeu o papel, que olhei curiosa, e seguiu em direção ao bar do hotel. Olhei o papel (que guardei até bem pouco tempo). Era um papelzinho dobrado. Uma espécie de bilhete. Digo "espécie" porque a primeira coisa que vi foi: आश्चर्य. Exato. Também não fazia ideia do que era aquilo. Mas abri e consegui decifrar uma caligrafia horrorosa: Meet us at the bar (Encontre-nos no bar).
Explicação (1): आश्चर्य quer dizer Surpresa, em hindi. (tenho anotado até hoje porque achei curiosíssimo)
Explicação (2): no bar estavam 6 indianos: Um eu conhecia, era Kippy, um dos "meus" indianos ( o que tirou a foto dos outros 4..rs) que, até então, eu achava que não viria conosco. E mais 5, tres homens e duas mulheres, novinhos em folha... rs Eles eram a आश्चर्य.
Só fui entender depois, mas explico pra vocês agora: os meus amigos tinham um outro amigo que tinha ido à India se casar e que trouxe a mulher, a mala..ops.. quer dizer, os sogros e o cunhado, para a lua de mel nos Estados Unidos. O Kippy levou-os à Vegas em outro carro (bem mais rápido, imagino eu) e agora iríamos todos usufruir dos prazeres da cidade em "grupo". Pronto. Explicado. Agora, entender já é outro problema.
Como é que alguém que acaba de se casar (com uma mulher que só conheceu no dia do casamento, eu soube depois) leva os sogros e o cunhado para a lua de mel?? E ainda fica melhor: os sogros e a mulher não falavam uma só palavra em inglês.
Vocês podem até pensar que essa era a parte mais estranha. Mas... आश्चर्य!! (adorei isso..rs) Não era! A parte mais estranha foi a divisão dos quartos. Que eram apenas dois: um para os rapazes (os meus 3 amigos indianos, o noivo e o cunhado), e o outro para os sogros, a noiva e EU! Pois é. Desse jeitinho. Eu e 3 indianos que não falavam inglês e nem tinham a menor ideia de quem eu era. O que, pra dizer a verdade, não faria a menor diferença.
Vou deixá-los digerindo essa... porque o resto da história fica ainda melhor...rs
continua...
Explicação (1): आश्चर्य quer dizer Surpresa, em hindi. (tenho anotado até hoje porque achei curiosíssimo)
Explicação (2): no bar estavam 6 indianos: Um eu conhecia, era Kippy, um dos "meus" indianos ( o que tirou a foto dos outros 4..rs) que, até então, eu achava que não viria conosco. E mais 5, tres homens e duas mulheres, novinhos em folha... rs Eles eram a आश्चर्य.
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| Arun, eu, a sogra, o sogro, o Kippy, o cunhado, a noiva e o noivo - que nem se tocavam. (O Lucky estava tirando a foto) |
Como é que alguém que acaba de se casar (com uma mulher que só conheceu no dia do casamento, eu soube depois) leva os sogros e o cunhado para a lua de mel?? E ainda fica melhor: os sogros e a mulher não falavam uma só palavra em inglês.
Vocês podem até pensar que essa era a parte mais estranha. Mas... आश्चर्य!! (adorei isso..rs) Não era! A parte mais estranha foi a divisão dos quartos. Que eram apenas dois: um para os rapazes (os meus 3 amigos indianos, o noivo e o cunhado), e o outro para os sogros, a noiva e EU! Pois é. Desse jeitinho. Eu e 3 indianos que não falavam inglês e nem tinham a menor ideia de quem eu era. O que, pra dizer a verdade, não faria a menor diferença.
Vou deixá-los digerindo essa... porque o resto da história fica ainda melhor...rs
continua...
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Viva Las Vegas!! parte III - From Space.
Ainda não tínhamos chegado. Na verdade parecia que não ia chegar nunca. O frio comendo solto. Eu já nem queria saber de neve. Estava sentada no banco de trás enrolada no cobertor, rezando por uma bebida quente e um quarto acolhedor.
Faltavam ainda uns 120km (umas 70 milhas) quando no meio da mais completa escuridão (deviam ser umas 9 da noite), uma visão! Não tem outra forma de descrever. Era uma visão. Uma visão absolutamente extraordinária. Diferente de tudo que eu já havia visto na vida. Parecia que no meio do deserto tinha um enorme buraco de luz. Isso, um buraco cheio de luz. Dava pra ver de muito longe. A luz que saía do chão, em algum lugar láááá longe, subia e iluminava uma área enorme ao redor... e acima! bem acima. Olha só isso:
Confesso que a primeira coisa que pensei foi: ai meu Deus! Os ETs!!! Obviamente que eu perguntei o que era aquilo (morrendo de medo de ser a tal Área 51 e que alguma espaçonave estivesse decolando de volta pra casa). "That's Vegas", respondeu meu amigo Harpreet (depois de 10 horas de papo sobre cultura, casamento arranjado, religião e cricket eu já era amiga de infância dele. O Arun, mal conversava). Como assim, Vegas? Ele disse que ainda faltava uma hora para chegarmos (numa das 354 vezes em que eu havia perguntado, "falta muito?"). Se ele estivesse certo era como estar em Taguatinga e avistar Anápolis. Ou estar no centro do Rio, olhar pra cima e ver Petrópolis. Impossível! Pelo menos era o que eu pensava.
Mal sabia eu que (mais uma do Guiness Book) Vegas é a cidade mais iluminada do planeta. E que é facilmente vista do espaço. Do espaço!!! Imaginem só. Além disso o Mojave é tão isolado e o ar tão puro que é um dos poucos lugares no mundo onde a Via Láctea pode ser vista a olho nu. Gente, é de tirar o fôlego. Olha só que coisa mais maravilhosa...
Bem, miragens à parte, eu sabia que circular no meio do deserto, naquele frio, num carro conversível, não acabaria bem. Não acabou. Uma hora mais tarde o Mustang, com a capota arriada, dois indianos e uma jeca de queixo caído e garganta totalmente fechada e inflamada, desfilavam pela Las Vegas Boulevard - The Strip - em todo seu esplendor. DESBUNDANTE!
Eu nem sabia pra onde olhar. Era absolutamente lindo! Toda a luz que vimos no deserto estava ali, na nossa frente, piscando, brilhando, rodando... parecia que ainda era dia. E um dia de festa!
Se naquela hora eu conseguisse emitir algum som, juro que eu teria gritado. Mas só conseguia olhar. E silenciar extasiada diante de tanta luz. Welcome to Fabulous Las Vegas.
Faltavam ainda uns 120km (umas 70 milhas) quando no meio da mais completa escuridão (deviam ser umas 9 da noite), uma visão! Não tem outra forma de descrever. Era uma visão. Uma visão absolutamente extraordinária. Diferente de tudo que eu já havia visto na vida. Parecia que no meio do deserto tinha um enorme buraco de luz. Isso, um buraco cheio de luz. Dava pra ver de muito longe. A luz que saía do chão, em algum lugar láááá longe, subia e iluminava uma área enorme ao redor... e acima! bem acima. Olha só isso:
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| Há 120km de Vegas a luz já iluminava boa parte do céu..e adjacências. Lindo demais. A foto não faz justiça ao fenômeno.. mas eu tentei. |
Mal sabia eu que (mais uma do Guiness Book) Vegas é a cidade mais iluminada do planeta. E que é facilmente vista do espaço. Do espaço!!! Imaginem só. Além disso o Mojave é tão isolado e o ar tão puro que é um dos poucos lugares no mundo onde a Via Láctea pode ser vista a olho nu. Gente, é de tirar o fôlego. Olha só que coisa mais maravilhosa...
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| Coisa de Deus mesmo, né? A luz na parte baixa é Las Vegas. |
Eu nem sabia pra onde olhar. Era absolutamente lindo! Toda a luz que vimos no deserto estava ali, na nossa frente, piscando, brilhando, rodando... parecia que ainda era dia. E um dia de festa!
Se naquela hora eu conseguisse emitir algum som, juro que eu teria gritado. Mas só conseguia olhar. E silenciar extasiada diante de tanta luz. Welcome to Fabulous Las Vegas.
A primeira visão da Sin City - A Cidade do Pecado -
Passando pelo Las Vegas Boulevard; luz, luz, luz.. Everywhere!
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| A pequena New York, num lugar que tem um pouco de tudo. |
continua...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Adendo - Por Si Ianuck
Corrigiu-me minha consultora gramatico-cultural Simone Ianuck, com todo seu saber, que a palavra "estória", embora tendo sido por minha pessoa fundamentada em anglicismo puro, deveria ser baseada na língua pátria.
Segue o adendo, imediatamente acatado. Valeu, Si!
De acordo com o Prof. Pardal.. opsss Pascoal.. "Quando uso "História", "história" e "estória"? É admitida a separação entre história (narrativa de fatos reais) e estória (narrativa de ficção). Porém o melhor é usar apenas "história" para ambos os casos para não complicar e nem cometer anglicismo (importação do inglês). História com "h" maiúsculo se trata de ciência, estudo."
Segue o adendo, imediatamente acatado. Valeu, Si!
De acordo com o Prof. Pardal.. opsss Pascoal.. "Quando uso "História", "história" e "estória"? É admitida a separação entre história (narrativa de fatos reais) e estória (narrativa de ficção). Porém o melhor é usar apenas "história" para ambos os casos para não complicar e nem cometer anglicismo (importação do inglês). História com "h" maiúsculo se trata de ciência, estudo."
Viva Las Vegas!! parte II - O Mojave
Já viu criança que vai viajar, acorda cedo e fica perguntando pra todo mundo dentro de casa: Tá na hora? Tá na hora? A gente já vai? Pois é. Era eu. Não lembro direito mas acho que nem dormi naquela noite. Quando cheguei lá fora o carro estava pronto, a capota arriada, e tinha um cobertor no banco traseiro, que eu ocupei (mulher não anda na frente em carro que tem indianos, a não ser que sejam só a mulher e o marido; também descobri isso).
As highways americanas são absolutamente fantásticas. Verdadeiros tapetes. Por isso as 10 horas de viagem foram fascinantes (tá certo..tá certo.. mentira. Umas 3 foram fascinantes, as outras 7 foram só deserto... pense!!). Só paramos em Baker, no Bob's Big Boy Restaurant, para comer e , evidentemente, conhecer o mais alto termômetro do mundo (como americano gosta dessas coisas. Maior isso, mais alto aquilo, menor numseiquê...). Não me apeteceu, mas os indianos estavam tão empolgados que tivemos que tirar fotos e comprar lembrancinhas (do tipo "estive em Baker e vi o mais alto termômetro do mundo"). O termômetro está no Guiness e tudo; o mais alto, e o registro da maior temperatura do Death Valley: 57ºC. E com tudo isso.. não vi graça nenhuma. Mas os bichinhos ficaram tão felizes. Tadinhos...
Lembram da criança que acorda cedo pra viajar?? Ela já estava de saco cheio de ficar naquele carro. Eu ficava o tempo todo: "Já chegou? Tá perto? Falta muito? Tá longe?". Um porre! Admito. Algumas milhas, e muito deserto depois, começou a escurecer... e esfriar. Notei algo diferente na beira da estrada e o Harpreet me explicou: É neve. Hein?! Como assim ,"É neve"??? NEVE?! NEVE!!! Eu quero parar!! Tirar uma fotinho. Pegar! Comer! Sei lá! Alguma coisa. Era NEVE!!! Mas ele explicou que é proibido parar em highways. Frustrante.
Não deixei que ele subisse a capota, apesar do frio absurdo que estava fazendo, e fiquei lá.. admirando o pouquinho de neve que eu conseguia ver naquele escuro todo.
Neve... uau! Melhor que ver o ET....
continua....
As highways americanas são absolutamente fantásticas. Verdadeiros tapetes. Por isso as 10 horas de viagem foram fascinantes (tá certo..tá certo.. mentira. Umas 3 foram fascinantes, as outras 7 foram só deserto... pense!!). Só paramos em Baker, no Bob's Big Boy Restaurant, para comer e , evidentemente, conhecer o mais alto termômetro do mundo (como americano gosta dessas coisas. Maior isso, mais alto aquilo, menor numseiquê...). Não me apeteceu, mas os indianos estavam tão empolgados que tivemos que tirar fotos e comprar lembrancinhas (do tipo "estive em Baker e vi o mais alto termômetro do mundo"). O termômetro está no Guiness e tudo; o mais alto, e o registro da maior temperatura do Death Valley: 57ºC. E com tudo isso.. não vi graça nenhuma. Mas os bichinhos ficaram tão felizes. Tadinhos...
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| No meio do Mojave o Bob's Big Boy e, é claro, o bendito termômetro. |
Não deixei que ele subisse a capota, apesar do frio absurdo que estava fazendo, e fiquei lá.. admirando o pouquinho de neve que eu conseguia ver naquele escuro todo.
Neve... uau! Melhor que ver o ET....
continua....
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| Eu.. e o famigerado termômetro. (Gente, eu já fui magra!!!!) |
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Viva Las Vegas!! parte I
Olha, vocês podem dizer o que quiserem dos indianos, mas os "meus", eram uma verdadeira Brastemp!
Eu queria ver neve. Doidinha do pneu pra ver neve. O frio era de lascar. E neve, nada. "Não tem neve na California, Dede". Pelo amor de Dadá! Tem que ter. E tem!!! Lake Tahoe!! Eu quero ir ao Lake Tahoe!!! De novo, (perdoe mamãe) usando minha beleza e meu charme para fins escusos. Mas eu tinha viajado quase 20 horas pra chegar aos Estados Unidos, em fevereiro, no meio do inverno, e não ia ver neve?? Ah, eu ia sim!
Os meus queridos indianos se avoroçaram todos. Tinham programado algo diferente para o meu primeiro final de semana americano. Na verdade, a programação não tinha sido feita pensando em mim (não sou boba nem nada), mas sim no pecado original de todos os indianos que vão pros States, a grande tentação: Las Vegas!
Confesso que achei o máximo, mas fiz o meu charminho pra não deixar cair no esquecimento o meu passeio ao Lake Tahoe (é claro). Adiado meu encontro com o gelo tratei de me aprontar para aventura. E que aventura. Eles resolveram ir para Las Vegas de carro, atravessando o famoso Deserto do Mojave (aquele onde fica a famosa área 51, uma base americana que, segundo a lenda, tem alienígenas e naves espaciais capturadas há anos) até Death Valley (o Vale da Morte), direto ao centro do estado americano de Nevada.
Ai,meu Deus, que máximo!! Eu ia pra Las Vegas e ainda corria o risco de ver ET!!! :) YES!!!!
continua...
Eu queria ver neve. Doidinha do pneu pra ver neve. O frio era de lascar. E neve, nada. "Não tem neve na California, Dede". Pelo amor de Dadá! Tem que ter. E tem!!! Lake Tahoe!! Eu quero ir ao Lake Tahoe!!! De novo, (perdoe mamãe) usando minha beleza e meu charme para fins escusos. Mas eu tinha viajado quase 20 horas pra chegar aos Estados Unidos, em fevereiro, no meio do inverno, e não ia ver neve?? Ah, eu ia sim!
Os meus queridos indianos se avoroçaram todos. Tinham programado algo diferente para o meu primeiro final de semana americano. Na verdade, a programação não tinha sido feita pensando em mim (não sou boba nem nada), mas sim no pecado original de todos os indianos que vão pros States, a grande tentação: Las Vegas!
Confesso que achei o máximo, mas fiz o meu charminho pra não deixar cair no esquecimento o meu passeio ao Lake Tahoe (é claro). Adiado meu encontro com o gelo tratei de me aprontar para aventura. E que aventura. Eles resolveram ir para Las Vegas de carro, atravessando o famoso Deserto do Mojave (aquele onde fica a famosa área 51, uma base americana que, segundo a lenda, tem alienígenas e naves espaciais capturadas há anos) até Death Valley (o Vale da Morte), direto ao centro do estado americano de Nevada.
Ai,meu Deus, que máximo!! Eu ia pra Las Vegas e ainda corria o risco de ver ET!!! :) YES!!!!
continua...
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| Arun abastecendo o carro antes da aventura no deserto. Aliás, carro, não: Mustang! (foi isso que eles disseram..rs) |
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Hari Kryshna!
O que poderia ser mais dinâmico e culturalmente apropriado e enriquecedor do que visitar um Templo Hindu, com 5 indianos, num país que não é o seu (nem o deles)? O dia escolhido para o meu "debut" hindu-espiritual seria o de uma importantíssima celebração: um dos 3333 deuses hindus estava fazendo aniversário ou comemorando bodas de prata, sei lá. Aceitei o convite cheia de entusiasmo. Nem imaginava o que me aguardava..
Quando chegamos na área do tal templo eu vi tanta gente, mas tanta gente, que parecia a saída do Maracanã em dia de Fla x Flu. Nunca imaginei que existiam tantos indianos naquela cidade (milhares deles, soube mais tarde, trabalham no famoso Vale do Silício, onde as empresas de informática americanas contratam indianos direto de sua terra natal). Já chegamos e fomos direto para uma fila. Enorme. Para que entrar em fila para entrar num templo, pensei. Mas, fiquei lá. Firme.
Algumas dezenas de metros depois avistei a razão da fila: dois monges hindus, com roupas características e colares de flor, seguravam imensos recipientes, os xorais, contendo uma goma branca de aspecto duvidoso e gosmento. As pessoas passavam por eles, enfiavam a mão na tal goma e comiam com toda a reverência. Pensei, com todo respeito que a ocasião exigia...EEEEECCCCCAAAAAA!!! Não tinha como não comer a lambança hindu. Tentei pensar rápido mas, algo que aprendi em momentos de desespero como aquele, quando a coisa aperta a gente não consegue pensar em porra nenhuma (desculpem-me, não tinha como usar outra palavra. Procurarei ser mais comedida no futuro). Todo mundo ali esperava que eu o fizesse. Fechei os olhos, enfiei a mão na cumbuca e peguei uma porção tão pequena quanto possível e com toda reverêcia que me era possível, sem por para fora o sagrado mingau, engoli o viscoso preparado.
Ufa. Vocês devem estar pensando: o pior já passou. Agora é só alegria, não é isso? Pois é. Eu também pensei. LEDO ENGANO. Ainda com o estômago embrulhado segui adiante, como bom soldado que sou, para enfrentar (não imaginava eu) a maior das agruras.
Do lado de fora do templo uma tonelada de sapatos velhos, com seu cheiro bem característico, amontoavam-se num monte disforme. Não. Não pode ser. Mas era. Não se entra de sapatos em templos hindus. Tudo bem. Mas vou deixar os meus separadinhos ali no canto, pra ninguém pegar. Sabe como é. mania de brasileiro. Achei que alguém poderia sair e dar um "tapa" no meu tenis Rainha...rs Entrei. Aí veio a surpresa. Mais uma. Não havia piso no templo. A terra batida tomava conta de toda a área. E com ela, um cheiro estranho e ocre. Eu tinha que perguntar. Vocês não perguntariam?? "Que interessante esse cheiro" (olha a minha educação escandinava funcionando...) "é esse o tal cheiro de curry que todo mundo fala?". Tolinha. Eu podia ter ficado calada, não podia? Podia ter sentido aquele cheiro fétido e azedo, mandado um Hari Kryshna bem educado e saído dali com os pés sujos e a cabeça erguida (e respiração presa). Mas não. Eu não. Eu TINHA que perguntar. Harpreet (meu indiano favorito até hoje) abriu um enorme sorriso em seu rosto gordo e bonachão, (e tenho certeza que com uma certa ironia maldosa), e me explicou: na verdade, como os hindus consideram a vaca um animal sagrado, costumam misturar terra batida com bosta de vaca para abençoar o local. Ahhh! Que inigualável benção! Eu estava pisando em solo sagrado. Alviçaras!!! Eu não só tinha comido a sagrada gororoba, como estava sendo igualmente abençoada dos pés à cabeça pela bosta da divina vaca. Ó glória!
Mas, como digo sempre, já que lá tá, que lá teje! E pensando no sábio ditado que minha amiga Fefa vive repetindo - o que é um carrapato a mais ou a menos pra um cachorro enfestado? - encarei o desafio. Com os pés enfiados na bosta sagrada e o estômago revirado na abençoada goma, lá fiquei eu, dançando com os indianos e celebrando as bodas de prata, ou o aniversário, do deus número 2396! HARI HARI!!!!
Quando chegamos na área do tal templo eu vi tanta gente, mas tanta gente, que parecia a saída do Maracanã em dia de Fla x Flu. Nunca imaginei que existiam tantos indianos naquela cidade (milhares deles, soube mais tarde, trabalham no famoso Vale do Silício, onde as empresas de informática americanas contratam indianos direto de sua terra natal). Já chegamos e fomos direto para uma fila. Enorme. Para que entrar em fila para entrar num templo, pensei. Mas, fiquei lá. Firme.
Algumas dezenas de metros depois avistei a razão da fila: dois monges hindus, com roupas características e colares de flor, seguravam imensos recipientes, os xorais, contendo uma goma branca de aspecto duvidoso e gosmento. As pessoas passavam por eles, enfiavam a mão na tal goma e comiam com toda a reverência. Pensei, com todo respeito que a ocasião exigia...EEEEECCCCCAAAAAA!!! Não tinha como não comer a lambança hindu. Tentei pensar rápido mas, algo que aprendi em momentos de desespero como aquele, quando a coisa aperta a gente não consegue pensar em porra nenhuma (desculpem-me, não tinha como usar outra palavra. Procurarei ser mais comedida no futuro). Todo mundo ali esperava que eu o fizesse. Fechei os olhos, enfiei a mão na cumbuca e peguei uma porção tão pequena quanto possível e com toda reverêcia que me era possível, sem por para fora o sagrado mingau, engoli o viscoso preparado.
Ufa. Vocês devem estar pensando: o pior já passou. Agora é só alegria, não é isso? Pois é. Eu também pensei. LEDO ENGANO. Ainda com o estômago embrulhado segui adiante, como bom soldado que sou, para enfrentar (não imaginava eu) a maior das agruras.
Do lado de fora do templo uma tonelada de sapatos velhos, com seu cheiro bem característico, amontoavam-se num monte disforme. Não. Não pode ser. Mas era. Não se entra de sapatos em templos hindus. Tudo bem. Mas vou deixar os meus separadinhos ali no canto, pra ninguém pegar. Sabe como é. mania de brasileiro. Achei que alguém poderia sair e dar um "tapa" no meu tenis Rainha...rs Entrei. Aí veio a surpresa. Mais uma. Não havia piso no templo. A terra batida tomava conta de toda a área. E com ela, um cheiro estranho e ocre. Eu tinha que perguntar. Vocês não perguntariam?? "Que interessante esse cheiro" (olha a minha educação escandinava funcionando...) "é esse o tal cheiro de curry que todo mundo fala?". Tolinha. Eu podia ter ficado calada, não podia? Podia ter sentido aquele cheiro fétido e azedo, mandado um Hari Kryshna bem educado e saído dali com os pés sujos e a cabeça erguida (e respiração presa). Mas não. Eu não. Eu TINHA que perguntar. Harpreet (meu indiano favorito até hoje) abriu um enorme sorriso em seu rosto gordo e bonachão, (e tenho certeza que com uma certa ironia maldosa), e me explicou: na verdade, como os hindus consideram a vaca um animal sagrado, costumam misturar terra batida com bosta de vaca para abençoar o local. Ahhh! Que inigualável benção! Eu estava pisando em solo sagrado. Alviçaras!!! Eu não só tinha comido a sagrada gororoba, como estava sendo igualmente abençoada dos pés à cabeça pela bosta da divina vaca. Ó glória!
Mas, como digo sempre, já que lá tá, que lá teje! E pensando no sábio ditado que minha amiga Fefa vive repetindo - o que é um carrapato a mais ou a menos pra um cachorro enfestado? - encarei o desafio. Com os pés enfiados na bosta sagrada e o estômago revirado na abençoada goma, lá fiquei eu, dançando com os indianos e celebrando as bodas de prata, ou o aniversário, do deus número 2396! HARI HARI!!!!
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| Eu e os meninos.Quatro deles; o outro estava tirando a foto rs Da esquerda para a direita: Arun, eu, Harpreet, Pankaj e Amit. |
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Turista acidental
Depois de minha chegada nada triunfal, passei algum tempo tentando me "achar" como hóspede numa casa com 5 indianos. Arun morava com mais 4 amigos, todos indianos evidentemente, numa casa de 3 quartos em um condomínio muito fofo em Frisco (San Francisco..para os íntimos). Desalojei um dos rapazes indianos e ocupei o quarto dele, em meio a Ganeshas, Shivas e Bramas, achando tudo o máximo.
O turista normal recolhe-se em seu quarto, desfaz malas, programa sua saída e aventura-se pela cidade munido de seu valioso e contemporâneo Guia da Folha todo marcado e cheio de "bizus". Deve ser muito legal. Imagino eu. No meu caso, as coisas aconteceram, digamos, de maneira bem inusitada. Eu não estava só num páis estrangeiro. Não. Eu estava num país estrangeiro, dividindo uma bolha com 5 alienígenas que falavam inglês, se não pior, tão mal quanto eu. Meu turismo, portanto, era totalmente acidental. Onde eles quisessem me levar, eu ia. Já que tudo era novidade mesmo, resolvi relaxar e aproveitar.
Vocês sabem que falo pelos cotovelos. Me comunicar em inglês, a princípio, foi uma piada - as pessoas tentavam entender e depois riam de mim; e, no final, passou a ser um programa de auditório - as pessoas nem tentavam entender, riam em uníssono e ainda batiam palmas).
O turista normal recolhe-se em seu quarto, desfaz malas, programa sua saída e aventura-se pela cidade munido de seu valioso e contemporâneo Guia da Folha todo marcado e cheio de "bizus". Deve ser muito legal. Imagino eu. No meu caso, as coisas aconteceram, digamos, de maneira bem inusitada. Eu não estava só num páis estrangeiro. Não. Eu estava num país estrangeiro, dividindo uma bolha com 5 alienígenas que falavam inglês, se não pior, tão mal quanto eu. Meu turismo, portanto, era totalmente acidental. Onde eles quisessem me levar, eu ia. Já que tudo era novidade mesmo, resolvi relaxar e aproveitar.
Vocês sabem que falo pelos cotovelos. Me comunicar em inglês, a princípio, foi uma piada - as pessoas tentavam entender e depois riam de mim; e, no final, passou a ser um programa de auditório - as pessoas nem tentavam entender, riam em uníssono e ainda batiam palmas).
Os indianos me rodeavam e ficavam olhando eu falar como quem assiste o último capítulo da novela das 8. Escutavam ávidos tudo o que eu dizia, como se fosse importante. E quando eu parava, ou porque a estória tinha acabado ou porque não lembrava de alguma palavra que precisava dizer, era um tal de "quer água?, "está com fome?", "quer ir a algum lugar". Ir a algum lugar?? Como assim?! Eu nem tinha acabado a estória!!!! Foi então que descobri o óbvio: eles não estavam nem aí pras minhas estórias. Eles simplesmente NUNCA, descobri mais tarde, nunca haviam ouvido, ou visto, uma mulher, que não fosse sua mãe ou irmã, falando livremente. O fato de eu falar e ainda rir diante deles era SURPREENDENTE. Quando percebi isso resolvi tirar proveito. Que maravilha! Na segunda vez que fiz uma pausa e eles me perguntaram o que eu queria, eu simplesmente disse: "Passar pela Golden Gate". E eles me levaram. Fomos em dois carros. Um verdadeiro comboio turístico. E eu lá. Pagando meu primeiro mico. Cabeça pra fora do teto solar, feliz que nem cachorro na janela do carro.
E foi assim, a primeira vez que "usei minha beleza para o mal". Sorry, mom.
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| Ei-la, a Golden Gate em todo seu esplendor..rs "Que nem que eu" rs |
Vício bom
Vicio: s. m. 1. Defeito que torna uma coisa ou um ato impróprios para o fim a que se destinam. 2. Tendência habitual para o mal. 3. Hábito de proceder mal. 4. Costume condenável ou censurável.
Apesar de respeitar o Aurélio acredito na liberdade poética..rs Minha definição de vício, diferente do Dr. Aurelio, não tem nenhuma conotação negativa.
Vicio: s. d. (s.d.=segundo dedé): Hábito salutar de manter a continuidade de determinada ação que nos dá infinito prazer. Bem, prazer é meio pesado.. satisfação. Isso. Satisfação. E alegria. Um monte de alegria. Considerando isso, continuemos...
Onde eu estava mesmo?? Ahhh.. a meio caminho de San Francisco.
Como já havia enfrentado a Gloria Gaynor e sobrevivido, parti feliz em meu segundo voo, com destino a San Francisco. Cinco horas depois lá estava eu, no aeroporto de San Jose. Pois é. Isso mesmo. Não estou doida, não. San Jose. Como dormi a viagem toda (graças ao abençoado Dramim) não ouvi o piloto informar que por conta do nevoeiro em San Francisco, o pouso seria em San Jose, uma cidadezinha a 90km de meu pretenso destino. Sem problemas, se não considerarmos que meu amigo Arun (um indiano que conheci na internet - outra estória..rs...) estaria me esperando no aeroporto errado.
Apesar de respeitar o Aurélio acredito na liberdade poética..rs Minha definição de vício, diferente do Dr. Aurelio, não tem nenhuma conotação negativa.
Vicio: s. d. (s.d.=segundo dedé): Hábito salutar de manter a continuidade de determinada ação que nos dá infinito prazer. Bem, prazer é meio pesado.. satisfação. Isso. Satisfação. E alegria. Um monte de alegria. Considerando isso, continuemos...
Onde eu estava mesmo?? Ahhh.. a meio caminho de San Francisco.
Como já havia enfrentado a Gloria Gaynor e sobrevivido, parti feliz em meu segundo voo, com destino a San Francisco. Cinco horas depois lá estava eu, no aeroporto de San Jose. Pois é. Isso mesmo. Não estou doida, não. San Jose. Como dormi a viagem toda (graças ao abençoado Dramim) não ouvi o piloto informar que por conta do nevoeiro em San Francisco, o pouso seria em San Jose, uma cidadezinha a 90km de meu pretenso destino. Sem problemas, se não considerarmos que meu amigo Arun (um indiano que conheci na internet - outra estória..rs...) estaria me esperando no aeroporto errado.
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| Este é o "aeroporto-rodoviária" de San Jose. E eu esperando uma chegada glamurosa... fala sério. |
Pense! Eu e minha mala. Uma ao lado da outra no meio do absolutamente nada. Esperando por alguém que eu nem sabia se chegaria. Eu precisava por em prática meu plano B: sentar e chorar. Muito.
Graças ao serviço de informações da Companhia Aérea, e à muita prece, uma hora mais tarde vejo chegar o meu amigo indiano, com um buquet de rosas na mão e cara de tacho. Deus existe! Penso. Aleluia! Aleluia????? "It's raining men". AH, NÃÃÃÃOOOOOO!!!!!!!!!!!
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| Não resisti. Essa é a Gloria Gaynor. A verdadeira, não a policial da alfândega..rs |
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
A primeira a gente nunca esquece...
Eu vivia repetindo pra mim mesma que nunca teria dinheiro suficiente ara viajar por aí. Minha amiga Simone, a quem chamo carinhosamente de "minha guru", viajava todo ano e vivia me dizendo algo que demorei para assimilar: "Depois que você for a primeira vez, não vai parar mais". Bidu!
Lembro do dia que saí da residência oficial do MLO (militar de ligação americano) com meu visto carimbado no passaporte. Não acreditava..
Um mês depois, em 27 de janeiro de 2001, eu chegava ao aeroporto de Guarulhos pronta para enfrentar meu medo e iniciar minha jornada (que continua firme e forte até hoje...). Tinha ouvido de tudo: "Eles não vão deixar você entrar, mesmo que tenha conseguido o visto"; "Vão te entrevistar como se fosse uma criminosa"; "Tratam você como cachorro.". Mas o conselho que tinha ouvido de meu amigo Ivo Brancalião, o grande Branca, antes de sair de Brasília, foi meu incentivo: "Não baixe a cabeça. Não permita que ninguém a humilhe e tudo vai dar certo". E deu.
O destino: San Francisco, California. A primeira e fatídica parada: Atlanta, Georgia. O confronto com a famigerada Imigração americana.
Olhei uma das oficiais e achei-a parecida com a Gloria Gaynor. Imediatamente "It's raining men" começou a tocar na minha cabeça. Sabe aquela música maldita que se agarra em todos os pelos do seu corpo sem que você consiga evitar?? Pois é. A mulher tinha uma cara muito mal-humorada e pensei "Não me chame. Não me chame. Não me chame". E aí... CLARO, Ela me chamou. "It´s raining men, aleluia.." E a mulher olhando meu passaporte sem levantar a cabeça. "Aleluia....it's raining men.." Ela me fez uma pergunta e me olhou com cara de desprezo. "Aleluia, it´s raining men" Ai meu cacete!!! O que foi que ela disse?? A música tocava alto demais na minha cabeça e eu não ouvi. "I beg your pardon??" UAU! A primeira frase dita a um estrangeiro. Como nos meus sonhos! bla bla bla bla. Ela repetiu. Droga, bem no meio do refrão "It's raining men...aleluia..". Não entendi nada. Olhei atônita para a Gloria Gaynor. Cara de quem está dividindo um número primo por uma fração. Ela falou em espanhol algo que entendi menos ainda. Quando eu estava a ponto de começar a chorar, lembrei do sábio conselho de meu amigo Branca: "Não permita que ninguém a humilhe e tudo vai dar certo". Desliguei a música na minha cabeça; olhei pra ela com cara de quem tinha a maior auto-confiança do universo e disse, em PORTUGUÊS, bem devagar "Eu nasci no Brasil. Não entendo nada de espanhol. Ou você fala comigo em inglês, e mais devagar, ou em português. Muito obrigada". E depois disso veio o silêncio e o risinho nervoso. A própria Monalisa. O coração eu desliguei antes, junto com a música. Por uma fração de segundo ela olhou pra mim. Juro que vi o sangue subir aos olhos dela. "Vai Gloria, quebra meu gallho", pensei. Ela baixou de novo a cabeça. Carimbou meu passaporte, estendeu-o a mim e disse: "GO!". E eu fui.
Bendito Brancalião....
Lembro do dia que saí da residência oficial do MLO (militar de ligação americano) com meu visto carimbado no passaporte. Não acreditava..
Um mês depois, em 27 de janeiro de 2001, eu chegava ao aeroporto de Guarulhos pronta para enfrentar meu medo e iniciar minha jornada (que continua firme e forte até hoje...). Tinha ouvido de tudo: "Eles não vão deixar você entrar, mesmo que tenha conseguido o visto"; "Vão te entrevistar como se fosse uma criminosa"; "Tratam você como cachorro.". Mas o conselho que tinha ouvido de meu amigo Ivo Brancalião, o grande Branca, antes de sair de Brasília, foi meu incentivo: "Não baixe a cabeça. Não permita que ninguém a humilhe e tudo vai dar certo". E deu.
O destino: San Francisco, California. A primeira e fatídica parada: Atlanta, Georgia. O confronto com a famigerada Imigração americana.
Olhei uma das oficiais e achei-a parecida com a Gloria Gaynor. Imediatamente "It's raining men" começou a tocar na minha cabeça. Sabe aquela música maldita que se agarra em todos os pelos do seu corpo sem que você consiga evitar?? Pois é. A mulher tinha uma cara muito mal-humorada e pensei "Não me chame. Não me chame. Não me chame". E aí... CLARO, Ela me chamou. "It´s raining men, aleluia.." E a mulher olhando meu passaporte sem levantar a cabeça. "Aleluia....it's raining men.." Ela me fez uma pergunta e me olhou com cara de desprezo. "Aleluia, it´s raining men" Ai meu cacete!!! O que foi que ela disse?? A música tocava alto demais na minha cabeça e eu não ouvi. "I beg your pardon??" UAU! A primeira frase dita a um estrangeiro. Como nos meus sonhos! bla bla bla bla. Ela repetiu. Droga, bem no meio do refrão "It's raining men...aleluia..". Não entendi nada. Olhei atônita para a Gloria Gaynor. Cara de quem está dividindo um número primo por uma fração. Ela falou em espanhol algo que entendi menos ainda. Quando eu estava a ponto de começar a chorar, lembrei do sábio conselho de meu amigo Branca: "Não permita que ninguém a humilhe e tudo vai dar certo". Desliguei a música na minha cabeça; olhei pra ela com cara de quem tinha a maior auto-confiança do universo e disse, em PORTUGUÊS, bem devagar "Eu nasci no Brasil. Não entendo nada de espanhol. Ou você fala comigo em inglês, e mais devagar, ou em português. Muito obrigada". E depois disso veio o silêncio e o risinho nervoso. A própria Monalisa. O coração eu desliguei antes, junto com a música. Por uma fração de segundo ela olhou pra mim. Juro que vi o sangue subir aos olhos dela. "Vai Gloria, quebra meu gallho", pensei. Ela baixou de novo a cabeça. Carimbou meu passaporte, estendeu-o a mim e disse: "GO!". E eu fui.
Bendito Brancalião....
Mundo Novo
Confesso que fui resistente. Mudanças nunca foram meu forte. Contar aos outros o que acontece comigo é quase um "esporte" pra mim.. Mas quem me conhece sabe que sou uma mulher de performances..rs Vocês hão de concordar que algumas situações merecem...merecem nada , EXIGEM uma boa performance.
De qualquer forma vamos explorar as possibilidades do famoso BLOG e ver no que dá. No mínimo, vou rir muito tentando fazer essa coisa funcionar. É "nóis"!
De qualquer forma vamos explorar as possibilidades do famoso BLOG e ver no que dá. No mínimo, vou rir muito tentando fazer essa coisa funcionar. É "nóis"!
Ao infinito e além!!!
Sabe aquela coisa de "sempre sonhei em fazer isso"?? Pois é. Sempre. Quando era menina inventava estórias onde eu sempre estava em algum lugar, nunca no Brasil, nunca falando português. Inventava lugares e situações, idiomas e expressões, e em todos eles eu estava na berlinda. Quando dei por mim tinha 9 anos e aprendia inglês do jeito que podia. Um dia eu iria conversar com alguém de outro país e essa possibilidade chegava a me emocionar.
A oportunidade só veio mais tarde. BEM mais tarde.
Viajar era um sonho. Viajar sozinha, meu terror! Me imaginava tentando conseguir uma informação sem conseguir me fazer entender. O medo é o maior dos limites. E o pior de todos, porque mora dentro da gente. Tentar evitá-lo é como tentar evitar alguém que divide uma quitinete com você. Mas, enfim, como nada é eterno, um dia a vontade de ganhar o mundo foi maior e eu decolei. Isso, decolei. Nem tentem imaginar uma balzaquiana (acima do peso) decolando.. HAJA impulso! Mas eu fui. E a história se fez.... a minha, pelo menos.
A oportunidade só veio mais tarde. BEM mais tarde.
Viajar era um sonho. Viajar sozinha, meu terror! Me imaginava tentando conseguir uma informação sem conseguir me fazer entender. O medo é o maior dos limites. E o pior de todos, porque mora dentro da gente. Tentar evitá-lo é como tentar evitar alguém que divide uma quitinete com você. Mas, enfim, como nada é eterno, um dia a vontade de ganhar o mundo foi maior e eu decolei. Isso, decolei. Nem tentem imaginar uma balzaquiana (acima do peso) decolando.. HAJA impulso! Mas eu fui. E a história se fez.... a minha, pelo menos.
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