sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pausa para a resposta mais criativa que já ouvi.

Gente essa eu precisava contar. Mas como foi um caso isolado eu resolvi parar a história e só postar a foto e .. lógico, a observação primorosa da italiana.

Andava eu pelo porto de Gênova (tínhamos ido visitar a casa onde nasceu nosso querido Cristóvão Colombo.. que como todos sabem não era espanhol, mas italiano), quando me deparei com o maior cachorro que já havia visto em toda minha vida. A senhora, uma corpulenta e típica italiana, passeava com dois cães. O gigantesco mastiff ingles e um pequeno vira-lata.

Louca para registrar a descoberta puxo papo com a mulher:
_ Nossa! Tão diferentes os seus cães.
_ O maior ainda é filhote e é meu, respondeu ela e emendou: O menor é o cachorro dele.
Gênio.

A senhora genovesa e seu mastiff.. o outro..bem, vocês já sabem ...rs

Essa foto é só para vocês terem uma noção
do quanto esses bichos podem crescer. É surreal!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O "bota-fora" inglês

Vocês hão de convir que depois de passar um momento inglório daqueles, todo o resto da tarde foi lucro. 
Ficamos andando pela praia mais um tempo e os olhares eram todos pra gente. Vejam vocês... se me contassem que duas mulheres caminhando na praia chamavam para si toda a atenção, eu diria "UAU! Deve ser uma sensação incrível". Não é! Que coisa mais bizarra. Não chamávamos a atenção por nossa incomparável beleza, mas sim pelo tamanho de nossos buquinis; que até então nos pareciam normais e em questão de segundos se tornaram minúsculos e indecentes.

Constrangidas, mas com a auto-estima lá em cima..rs, decidimos sair da praia e procurar um lugar para comer antes de voltar ao albergue; só para descobrir uma outra interessante faceta de nossos amigos europeus: eles prezam como ninguém a hora da siesta! Restaurantes, lojas, comércio em geral, fecham de 12h as 16h para que os gentis trabalhadores possam dormir. Não é brincadeira. Eles dormem. Um restaurante fechar na hora do almoço é tão absurdo que não parece verdade. Mas é.

Lá fomos nós de volta ao albergue cansadas, cheias de areia preta grudada no corpo e mortas de fome. Ao chegarmos ao quarto deparamos com as duas jovens inglesas que já estavam se instalando. Apresentações de praxe, Heather e Ann pouco falaram e já caíram no mundo. Nós, banhadas e cheirosas saímos para procurar um lugar para comer e voltamos cedo pro quarto. Sabíamos que o albergue não permitia a entrada após as 23 horas e estávamos cansadas demais. Na manhã seguinte pegaríamos a balsa bem cedo para ir à Napole encontrar Anthony, e confesso que estava ansiosa por conhece-lo. 
Débora, Antonio (com sua camiseta do Brasil) e eu,
em frente à piscina do albergue.


Deitamos cedo e já estávamos dormindo havia um tempo quando a porta se abre num estrondo e as inglesas entram: bêbadas como dois gambás! Elas cantavam, riam e tentavam ficar de pé mas caiam uma sobre a outra a cada passo. Uma zona!

Passados alguns minutos alguém bate à porta e começa a falar, em inglês, pedindo que abram a porta. Como as meninas não se mexeram e a pessoa do lado de fora continuava batendo, tive que me levantar e fazer as honras. “Afinal de contas, o que está acontecendo?”, disse eu cheia de marra ao abrir a porta. Deparei-me com o dono do albergue e a mulher dele. Os dois com cara de poucos amigos e roupas de dormir. Ele me pediu desculpas, entrou e começou a falar com as duas meninas. Uma vomitava no banheiro e a outra dava gargalhadas como uma louca sentada no chão ao lado da cama. Ele gritou por alguns minutos, pegou as mochilas das duas, depois de certificar-se de que não eram minha ou da Débora, e arrastou tudo pra fora do quarto. A esposa dele entrou no banheiro, ajudou a Heather a lavar o rosto e tirou-a de lá pelo braço. Parou, levantou Ann do chão e, numa tentativa de não ser muito rude, arrastou as duas pra fora do quarto. A Débora, que não entendia inglês, só olhava tudo com os olhos arregalados e a respiração presa. Eu fiquei ali, parada ao lado da porta recém-aberta esperando para ver como aquilo ia acabar. Eles saíram, ele olhou pra mim como se pedisse desculpas, deu de ombros e fechou a porta atrás de si.

Parecia que um furacão tinha passado ali. Não se passaram mais de 10 minutos entre o momento em que elas entraram no quarto, à hora em que foram defenestradas dele sem maiores cerimônias. Que diabos foi aquilo?
Só na manhã seguinte, durante o café da manhã, Antonio, o protagonista do “bota-fora” da noite anterior, veio sentar-se à mesa conosco e puxou assunto. Ele se desculpou e explicou: os jovens europeus não têm limites. Por isso eles mantinham uma política rigorosa: ninguém entra depois das 23h; não se admitem hóspedes bêbados ou drogados e absolutamente ninguém fica no albergue entre as 10h e as 16h. “As regras são claras e estão afixadas num quadro de avisos na recepção”, explicava ele, tentando minimizar o choque dos acontecimentos. “Eu avisei a elas antes de saírem, mas já esperava que isso acontecesse. Quando elas não chegaram até às 23h, eu e minha esposa esperamos acordados. Ahh os ingleses... Sempre os ingleses..” disse ele, com ar cansado.

Na verdade o álcool é um problema muito sério entre os jovens europeus. O fato de estarem numa ilha tornava o controle sobre as drogas mais pesadas ainda mais rigoroso, o que levava os jovens a consumir muito mais álcool que o habitual.

Avisamos a ele que estávamos indo à Napole e que voltaríamos à noite. Despedimo-nos e seguimos para esperar o ônibus, que nos levaria à balsa, que nos levaria ao trem, que nos levaria ao encontro de meu amigo Anthony. A jornada era longa mas a aventura valia a pena...  e que aventura!


...continua

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

As sereias do Mediterâneo

O ônibus seguia, lotado e vagaroso, entre as colinas rochosas da Ilha. A vista era fabulosa! Não, peraí: FA-BU-LO-SA! Assim, dito sílaba à sílaba. De cair o queixo mesmo. Lá embaixo o Mediterrâneo, escuro e denso, se estendia até onde a vista alcançava. Até o mar na Itália é diferente, pensei. A sensação era indescritível. Estávamos nos aventurando, num mundo totalmente novo. Quem diria que eu, filha de uma dona de casa e de um funcionário público, estaria um dia diante de uma paisagem como aquela. Era surreal. Coisa de cinema; tão bizarro quanto um filme do Tarantino.
O abençoado autobus de Ischia. Charmoso, né?? Vai lá...
Veja se aguenta uma viagem de uma hora em pé nessa gracinha..

Tentando nos equilibrar, íamos olhando tudo, na esperança de avistar o tal albergue do qual só conhecíamos o nome. Cinqüenta minutos de viagem, logo depois de uma curva entre duas enormes rochas, lá estava ele: o albergue mais chic que já vimos! Com piscina e tudo, diante daquele mar de azul escuro e profundo. Só uma coisa não constava no “script”: o albergue ficava a uns 100 metros da praia.. isso se pudéssemos descer penduradas numa corda! Do alto da enorme rocha podíamos ver a praia lá embaixo. Chegar nela eram outros quinhentos. Teríamos que percorrer um caminho descendente de pelo menos 2 km.. e amargar uma subida tão íngreme que eu já lamentava não ser descendente de robustos cabritos monteses.
Nos arrastamos para dentro do albergue e demos de cara com o dono, vestindo uma camisa do Brasil. Era mesmo como chegar em casa. A alegria e a simpatia com que ele nos recebeu foi um alento depois daquela jornada ulissiana. Ele nos mostrou nosso quarto: quatro camas, um banheiro e uma imensa varanda de frente pro mar; nos alertou que teríamos que dividi-lo com duas inglesas que chegariam em seguida. Depois de dividirmos um quarto sem banheiro com 10 meninas em Florença, dividi-lo com duas inglesas era fichinha, vocês não acham? Mas não esqueçam de uma coisa: eu estava lá! O que torna o “óbvio” a coisa mais incerta do universo rs. Mas isso é história pra depois.
Bem, não me lembro se comentei com vocês, mas a grande maioria dos albergues não permite que os hóspedes fiquem no quarto no período de 10 da manhã às 5 da tarde. Todos devem sair. Como chegamos por volta de uma da tarde e estávamos famintas e cansadas resolvemos descer até a praia e fazer o reconhecimento do terreno. Depois comer alguma coisa e subir por volta das 6 para tomar banho e, enfim, dormir.
A vertiginosa e empolgante descida até o mar..
(ps: Eu disse que já tive um grande futuro no meu passado, viu?)
Trajando nossos belos biquínis cariocas (quem conhece sabe a diferença..rs pelo menos comparado aos europeus) começamos nossa caminhada montanha abaixo até a praia de Maronti. A descida era vertiginosa. Dava medo. Nunca pensei que sandálias havaianas pudessem ser tão perigosas. Associadas à areia e pedra viram uma verdadeira máquina de tombos. Mas o que era um tombo a mais ou a menos para quem tinha pago a quantidade de micos que paguei? Eu me equilibrava 2 metros e escorregava 10. Talvez até mais do que isso se contarmos a vergonha do “esquibunda” improvisado. O que parecia ser o terror de todo andarilho acabou sendo providencial: chegamos lá embaixo bem mais rápido do que imaginávamos. O derriére todo ralado, mas a moral intacta.
Finalmente alcançamos um local plano e pudemos voltar a caminhar sobre duas patas como qualquer homo erectus que se preze. Entramos na vila e fomos direto procurar uma entrada para o mar.
Creio que todos vocês já tiveram o privilégio de ir à praia. Não importa se no Rio de Janeiro, no sul, no nordeste... ou nas Bahamas. Todo mundo se lembra da sensação única de dar aquela paradinha no calçadão e olhar o mar primeiro para depois pisar na areia quente e procurar um lugarzinho ao sol. A sensação é de conquista. De trabalho realizado. “Cheguei!” E foi exatamente assim que me senti.
Diferente de todas as praias que conheci, aquela não tinha areia. Parecia areia. Pregava na gente como se fosse areia. Mas não era areia. Eram pequenas pedrinhas roliças e negras. Coisa de terreno vulcânico; motivo também da água quente das termas de Ischia. Legal, né?
Essa foto eu TINHA que postar: na verdade era só para mostrar o lixeiro.
GENTE!! OLHA O LIXEIRO ITALIANO!
Moreno sarado, alto e todo estiloso com seu óculos Ray Ban.


Procuramos um local onde fazer nosso “montinho” e deitar ao sol como boas cariocas e assim o fizemos. Antes de aventurarmo-nos no Mediterrâneo, que de perto era ainda mais escuro e assustador, resolvemos descansar o esqueleto. Esqueleto nada, precisávamos dar um “refresco” para os nossos traseiros doloridos.
Deitamos e ficamos apreciando a paisagem e observando de perto a fauna local. O curioso a respeito das européias é que elas são cheias de pudor quando o assunto é bunda. Mas fazem top less como se tivessem ainda os peitinhos de uma adolescente. E eu garanto a vocês que 99,99% delas..NÃO TEM! Chegava a ser bizarro ver a mulherada de peito de fora usando calcinhas imensas e fofas; pareciam estar vestindo fraldas geriátricas. Ahh e como elas gostam de brilho! Biquinis dourados, prateados ou cheios de paetês e lantejoulas era o que mais se via na praia.
Deda e seu biquininho carioca:
sensação nas areias  escuras da Praia de Maronti.
No detalhe... os olhares masculinos ao fundo.
Levanto-me para fotografar e noto que todos os jovens italianos que estavam perto de nós subitamente mudaram de posição. Todos viraram de bruços, se virando de costas pro mar. “Que estranho”, pensei. Mas então pude ver o motivo da súbita mudança: a Débora tinha tirado o short. O fato dela ter uma bundinha minúscula não parecia ser um fator depreciativo, o que mais chamava a atenção dos “ragazzi” era o tamanho do biquíni! É claro que registrei o momento inusitado! Deda e seu biquininho infanto-juvenil sendo alvo de todos os olhares masculinos daquela faixa de areia. Hilário!
Quando ser “assediadas” cansou-nos, fomos para a água. No albergue já havíamos sido avisadas que era muito seguro deixar as coisas na areia. Não haviam “ratos de praia” em Ischia. Amém! Menos uma preocupação. Finalmente, depois de 3 semanas na Itália, experimentamos a sensação de mergulhar no Mar Mediterrâneo. Que horror! Gente, a água era um gelo! Mas isso não é o pior. Estávamos acostumadas a entrar no mar de mansinho. Um passinho aqui outro ali, até que a água lentamente subisse à nossa cintura para o mergulho magistral. Não sei se em toda costa leste da Itália acontece o mesmo, mas naquela praia especificamente o mar era tão traiçoeiro que apesar dos quase 40 graus do verão europeu, foi a primeira e última vez que nos aventuramos a entrar. O primeiro passo colocou a água na altura de nossa canela. O segundo nos cobriu totalmente. Como se tivéssemos entrado num enorme buraco negro cheio de água salgada e areia, muita areia. E as ondas nos puxavam cada vez mais para o fundo. “Então é por isso que fica todo mundo na areia e o mar quase não tem ninguém!”. Brilhante! Que maneira de descobrir.
Quando conseguimos nos livrar das ondas e por os pés de novo em areia quase firme, nossos cabelos estavam cobertos de areia, os biquínis completamente desajeitados e os olhos arregalados com se tivéssemos sido salvas de um naufrágio. Em resumo: parecíamos duas loucas resgatadas do maior “caixote” de nossas vidas! Ninguém parecia notar o sufoco que tínhamos passado. Menos mal. De acordo com a física quântica aplicada: a vergonha fica pior na proporção em que o mico é presenciado. Ou seja: quanto mais gente vê, maior o mico! rs

... continua

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O calvário de Ischia



“Pobre é fogo!”. Já dizia minha avó. Quando tudo dá certo pra gente, começamos a pensar que deve vir algo errado em seguida. Porque não podemos acreditar que o universo está a nosso favor? Porque não podemos simplesmente, curtir os momentos de glória sem pensar em mais nada?

Depois daquele dia abençoado em Assis, quando até meu DNA eu deixei nas calçadas medievais, eu juro pra vocês que eu pensei: “O que mais poderia acontecer conosco nessa viagem?” É claro que... nada! Daquele dia em diante, com todos os nossos pecados já pagos, tudo seria perfeito! Vamos mudar nossa vibração mental e pensar positivo, não é mesmo? Bem... Infelizmente não foi bem assim. Afinal de contas iríamos ficar dois meses viajando e até então só tinham se passado três semanas. Estávamos no meio da Itália e no meio de nossa viagem dos sonhos. Portanto o destino ainda nos reservava muitas aventuras.

Próxima parada: Napole! Eu estava mais ansiosa em ir para sul do que um pássaro imigrante durante o inverno canadense. Meus antepassados saíram do sul da Itália, de alguma cidadezinha na Calábria, para serem seduzidos pelo chiado e o charme carioca, no Rio de Janeiro. Conhecer a Calábria era como fechar um ciclo. Além do mais eu iria finalmente encontrar o “belo Antonio”. O americano Anthony, o filho do diplomata americano que conheci na interent, lembram-se? Anthony vivia em Napoles e em nosso último contato combinamos um encontro caso eu decidisse aparecer. E lá fomos nós.
Ferentino - a caminho de Napole

No caminho rumo ao sul a paisagem mudou completamente. O ar bucólico e os campos floridos do norte deram lugar à uma vegetação seca e rasteira.  É até um pouco difícil explicar. O norte da Itália parece um lugar mais suntuoso, mesmo as cidades mais simples podem parecer saídas de contos de fadas. Ao sul as casas parecem ter-se aglomerado de maneira desordenada, meio bagunçada, digamos assim. As pessoas falam ainda mais alto (se alguém conhece um italiano que fale baixo, por favor me apresente...rs) e acredito que se tiverem os braços cortados... ficam mudos! Quanto mais o trem se afastava de Roma maiores eram as diferenças. As pessoas eram mais “cheinhas”, mais morenas e mais alegres.

Eu e Débora já havíamos reservado o albergue num dos lugares mais bonitos da região: A Ilha de Ischia. Só de vermos a paisagem no site ficamos boquiabertas. O que não contávamos era ter que nos locomovermos de balsa sempre que quiséssemos ir à cidade. Portanto, estávamos presas a horários e à grana (cada viagem custava-nos 15 euros!).
Napole - uma metrópole à beira mar

Ischia era uma ilha termal. A Caldas Novas italiana. Fontes de água quente e praias de areia negra eram sucesso absoluto entre os italianos. Como chegamos no meio do verão, o calor intenso não fazia das fontes térmicas lugares muito convidativos, por isso a facilidade em encontrar vagas no albergue.

Ischia - vista da balsa
Chegar à Ischia já foi mais complicado do que gostaríamos, mas chegar ao albergue foi praticamente uma aventura à parte. De Napole ao porto e depois à Ilha de Ischia levamos quase duas horas. Cansadas depois de mais de 4 horas viajando não esperávamos ter que esperar por um ônibus para levar-nos ao albergue, que ficava (é lógico) do outro lado da Ilha. Como era o único transporte público disponível na região, esperamos por quase uma hora que o bendito chegasse. Mas seria interessante partilhar o “passeio” com as mais de “cem pessoas” que também o aguardavam.  Quando finalmente chegou, sentimo-nos em casa. Eu, pessoalmente, recordei-me dos ônibus que me levavam do subúrbio à zona sul do Rio de Janeiro quando eu ia para a faculdade. Depois de entramos e sermos devidamente empilhadas dentro do veículo compreendemos a origem da palavra “coletivo”. O detalhe que fazia da aventura um momento ainda mais lúdico: o transporte era gratuito. “Que diferença isso faz em nossa história?”, vocês poderiam pensar. E eu respondo: mesmo aqueles que poderiam andar um quilômetro ou dois para chegar à praia, ou em casa, não abriam mão da “suposta comodidade” de usar o abençoado, e gratuito, meio de transporte. Porque não? Não é verdade? Porque não usufruir da maravilha que é a “facilidade sem ônus”?
E assim, em meio a dezenas de italianos suados e cheios de sacolas, cruzamos a Ilha de Ischia com nossas malas e esperanças, em direção ao nosso tão esperado albergue Cada D’ Antonio (os Antonios me perseguiam..rs).

... continua.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O mais longo dos dias... finalmente chega ao fim.

Eu sabia que os trens europeus são extremamente pontuais. Mas era a primeira vez que via um parar na estação antes do horário e ficar esperando os passageiros chegarem. Era o nirvana ferroviário!
As passagens de volta não tinham lugares marcados por isso entramos rapidamente e nos acomodamos. Incrível como 10 minutos podem demorar tanto a passar quando você não se sente confortável. Havia algo errado naquilo. Como só havia um trilho na estação, um binário como dizem os italianos, os trens de ida ou vinda paravam no mesmo lugar. Ficamos ali olhando pela janela aquele bando de gente na estação. Porque será que ninguém entrava? Era o que não conseguíamos parar de pensar. De repente a Débora notou uma coisa e pareceu se alarmar. Ela pega meu braço sem tirar os olhos da janela  e diz: “Aquele grupo ali não veio com a gente de Roma?” Eu olhei. Sim, vieram, pensei. Mas não precisei falar nada. Imediatamente olhei pro passageiro do banco ao lado e perguntei: “Excusi. Questo é Il treno per Roma?”. Nem sei porque perguntei, mas sabe como é..a esperança é a última que morre. A resposta era esperada mas nem assim foi menos alarmante: “No. Questo trenó é per Firenze”. Florença! Duas horas de viagem à Florença, de onde tínhamos chegado há alguns dias. Mas isso não era a pior parte. Não tínhamos um único euro furado. Nada. Nem passaportes, nem moedas, nem comida. Nada! Ir parar em Florença seria absolutamente desastroso.
A resposta atingiu-nos como um raio. Levantamos imediatamente e corremos para a porta. Só para ouvir o tsssssssssss da bendita se fechando. Não sei porque mas nossos gritos desesperados não ajudaram. Devíamos ter tentado algo mais exotérico, como o abre-te sésamo. Mas nem pensamos nisso. E foi ali, naquele momento que ele chegou...o PÂNICO! Puro,  crescente, paralisante e absoluto.
Eu queria tentar encurtar essa história, mas muita água rolou depois daquilo, e não era minha culpa dessa vez...rs E, como eu mencionei antes, aquele foi, sem sombra de dúvida, o mais longo dos dias de nossa fatídica viagem. Pelo menos até aquele momento...
Ver o trem se afastando e a estação diminuindo tão depressa foi aterrador. O que faríamos? Como voltaríamos? Onde iríamos dormir? Comer? Isso tudo pensamos em fração de segundo  e dava pra perceber o medo só de olhar pra nós. De pé diante da porta fechada do trem, a paisagem voando pela janela, olhávamos uma pra outra.
As portas de entrada e saída dos trens italianos ficam num espaço de 3m x 2m separados entre os vagões por duas portas de metal. Estávamos ali há alguns minutos, em silêncio, olhando uma pra outra. Lágrimas nos olhos, mas nenhuma se atrevia a deixá-las rolar ou estaríamos assumindo nosso desespero e isso tiraria nossa capacidade de raciocinar. De repente, sem que nenhuma das portas se abrisse, pelo menos não que o percebêssemos,  um homem surgiu no canto de um dos vagões. Estranhamente trajando um terno branco, meio encardido, com sapato branco e gravata branca. O homem olha pra nós e diz: ” ma qui passa”? Aquela pergunta nos chamou de volta à realidade mas ao mesmo tempo teve um efeito bombástico sobre nós: desencadeou uma verdadeira verborragia em cima do pobre coitado. Pense! Duas desesperadas falando ao mesmo tempo aos berros e, depois do transe, chorando como duas bezerras desmamadas.
O homem tentava entender mas era tudo uma grande confusão. E ele resolveu por ordem no barraco. Levantou as mãos e quase gritando disse a expressão mais fofa que ouvi na língua italiana : “Aspeta um átimo” (não é lindo?)(Espera um instante). Uma de cada vez! Disse ele. Nós entendemos, mas a ansiedade nos atropelava. A Débora parou de falar, olhou pra mim e eu tentei: “ Doveva in treno per Roma e siano in trenó per Firenze. No soldi per retorno”*. Vocês podem pensar o que quiserem, mas que meu vocabulário deu uma evoluída..ahhh isso deu! Tudo bem que falei o tempo de verbo errado, e na ordem mais louca possível, mas era italiano, pelo amor de Deus.  (*Estávamos indo pra Roma e estamos no trem pra Florença. Não temos dinheiro pra voltar).
O homem fez sinal para pararmos de falar. Pos a mão no bolso do paletó e tirou um celular. Falou com alguém em italiano e tão rápido que a única coisa que entendemos foi o bendito “per Roma e per Firenze”que já nos dava arrepios. Lá fora o sol já ia baixo e a paisagem continuava voando diante de nós. Não passaram 10 minutos entre nossa triste descoberta e o telefonema do estranho benfeitor, quando ele desligou o telefone, olhou pra nós e fez um gesto universal: levantou os polegares e sorriu. Depois bateu de leve com a mão na testa, o que pra bom militar significa “Tá comigo!”. Nós literalmente nos jogamos em cima do homem. Grazie, Grazie, grazie e ficamos ali, grudadas no cara. Ele não conseguiria nem se coçar sem esbarrar em uma de nós.
Ele bem que tentou explicar o que ia fazer mas só sabíamos que ele tinha erguido os polegares e mostrado os dentes e pra nós isso queria dizer: estamos salvas (ou ele é um tarado pervertido, mas naquela hora.. até isso era lucro!).
De repente, pouco mais de dez minutos depois, o trem diminuiu a velocidade. Olhamos em volta. Nada. Porque o trem pararia no meio do nada? Ele foi parando, parando e finalmente conseguimos ver uma estação que nos parecia abandonada. Só uma plataforma no meio da paisagem e alguns outros trilhos se emaranhando no chão. Enquanto o trem se aproximava vimos outro trem parado, no lado oposto ao nosso, na velha plataforma. Muito estranho. Nosso trem finalmente parou. As portas se abriram e ficamos olhando sem saber o que fazer. Nosso benfeitor salta do vagão e sobe numa pequena calçada ao lado dos trilhos. Olhamos surpresas mas ainda sem saber o que fazer. Ele nos chama com as mãos e pulamos para fora. O trem fecha as portas e começa a se mover sumindo em instantes. Em volta tudo escuro, só o homem, os trilhos e a plataforma ao longe, com o trem lá, parecendo respirar pesadamente enquanto esperava. Olhamos pro homem e pela primeira vez ele parecia estar impaciente. “ Andare! Attraversare i binari. Il trenó attesa per voi”. Foi a melhor lição de italiano que tivemos na vida. Não precisou de segunda aula. Ele disse, nós nos entreolhamos e saímos em disparada pelos trilhos sem nem mesmo olhar pros lados. Subimos a plataforma de um salto só e um homem, provavelmente o fiscal do trem, com seu uniforme e lanterna na mão gritou pra nós: “Andare, andare!”. Estávamos quase nos jogando dentro do trem quando a Débora gritou “não agradecemos ao homem”. Nos viramos para a direção de onde viemos para agradecer e surpreendentemente não vimos absolutamente ninguém. Nem sombra de ser vivo. Não havia rua, escada, túnel, absolutamente nada além da pequena calçada e de um enorme muro de uns 3 metros de altura.  Eu lembro exatamente da expressão no rosto da Debora quando olhou pra mim. “Cadê o homem?”, ela disse. Era simplesmente inacreditável. A coisa mais inverossímil de toda aquela viagem. bem, nós chegamos à nossa própria conclusão e eu deixo que vocês cheguem ás suas. O fato é que ele não estava em lugar algum, mas não dava mais tempo de procurar.
O fiscal tinha acabado de usar seu apito ensurdecedor em nossos ouvidos. Nos jogamos pra dentro do trem e imediatamente ele começou a se mover. O calor era intenso mas milagrosamente aquele trem tinha ar condicionado. Nos sentamos e a primeira coisa que fiz foi perguntar ao passageiro à minha frente pra onde ia o trem. “Per Roma”, disse, para depois completar, em inglês: “E não sei como fizeram isso mas estamos parados aqui por uns 15 minutos”. Vocês acreditam numa coisa dessas?? Gente! Aquele era o NOSSO trem! O trem que deveríamos pegar às 6 da tarde, na estação de Assis. Aquele homem de branco, que nem fazemos idéia de onde surgiu, conseguiu parar um trem no meio do nada e faze-lo esperar por nós! Ninguém acreditaria nisso.
Já acomodadas olhamos em volta e achamos o trem muito diferente do trem no qual viajamos de manhã. Esse era limpo, com confortáveis bancos individuais em tecido azul com encosto para a cabeça e braços anatômicos. Isso sem falar no ar condicionado. Antes mesmo de chegarmos à estação de Assis o fiscal abre a porta do vagão e entra pedindo os bilhetes. Até aí, tudo às mil maravilhas. Quando parou ao nosso lado e perguntou pelo “bilheto”mostramos nosso bilhete meio amassado e esperamos. O homem olhou o bilhete e para nossa surpresa não o perfurou e devolveu como fez com o dos outros passageiros. Ele os devolveu e explicou em italiano que aquele era o vagão da primeira classe e que o nosso era o da classe econômica 2 vagões à frente. A Débora olhou pra mim e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa ou pior, SE LEVANTASSE pra mudar de vagão, eu peguei os bilhetes, sorri pro homem e disse “SI, si, Braziliana”. O homem disse tudo de novo, dessa vez mais devagar, mas não perdi a pose “Si, si, Brasil, futebol, si, si, grazie” depois disso foi só balela em português mesmo, sempre com o mesmo sorriso de quem rasga dinheiro e come queijo de cabra azedo. O cara tentou, coitado. Falou tudo de novo e só consegui obter de nós a mesma reação idiota. Ele deu de ombros, falou alguma coisa e foi embora. Nós conseguimos! Ahhh e como nós merecíamos!!!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte III

Pra descer todo santo ajuda. Todo mundo sabe disso. A volta à estação durou pouco mais de 15 minutos e chegamos lá mais cedo do que imaginávamos. A cidade de Assis, a parte fora dos muros medievais, se desenvolveu em torno da ferrovia. Na rua em frente à estação havia algumas pequenas lojas e do outro lado da estação havia uma igreja linda com uma imagem dourada encimando a torre. Como teríamos que esperar ainda mais de uma hora pelo nosso trem, saímos a explorar o vilarejo.
A bendita estação de Assis...são tantas emoções.

Atravessamos os trilhos e fomos ver a igreja que nos chamou a atenção. Mal chegamos do outro lado, sem nada que nos alertasse sentimos os primeiro pingos de chuva. Inesperadamente o céu desabou sobre nós. Corremos até alcançar a única marquise da rua, em frente à uma pequena loja. Uma sapataria. Não uma sapataria comum, com sapatos na vitrine e vendedores desagradáveis te cercando. Uma sapataria onde se faziam sapatos. Era realmente inusitado. A marquise era minúscula, mas para quem enfrenta um dilúvio era uma verdadeira benção. Estávamos lá há pouco mais de 1 minuto, se tanto,  nos espremendo uma na outra para aproveitar o espaço, quando a porta da loja se abre. Para nossa surpresa surge a figura mais bizarra que tivemos a chance de ver até então, durante a viagem: o sapateiro. Um típico sapateiro italiano. O homem era baixo, bem mais baixo que eu, tinha o cabelo totalmente grisalho e ensebado; usava uma galocha imunda e um avental de borracha, que acredito deva ter sido branco num passado bem distante. O rosto, os braços e as mãos absolutamente imundos. Graxa da cabeça aos pés. Ele sorriu e desatou a falar num italiano acelerado e incompreensível (como se o fato de falar devagar pudesse trazer algum alento para nós..haha.). Ele repetia a mesma frase e gesticulava loucamente. Vendo que não entendíamos nada, subitamente parou de falar, me pegou pelo braço e me puxou pra dentro da loja; a Deda agarrada em meu outro braço.
Parecia que tínhamos entrado em um universo paralelo. Nunca poderia imaginar que uma fachada tão pequena e inexpressiva pudesse ser a porta de entrada para algo com tamanha dimensão. Era como a entrada para a bat caverna. O lugar era enorme. Haviam sapatos espalhados por todo lado. Couro curtindo, pendurado nas paredes e nos varais improvisados (pelo menos é o que parecia), tanques de tinta e graxa. Muita graxa, por todo lado. Na parede, calendários antigos cheios de anotações, marcas e ...graxa.
Ele puxou um banco e apontou para que sentássemos. Os gestos amistosos e exagerados dispensavam palavras: ele só queria nos tirar da chuva e ser gentil. Pobre homem. Ele não imaginava que ao nos fazer entrar em seu local de trabalho, estava expondo a Deda a um circo dos horrores. Eu, rendida pela gentileza do homem, sentei-me no banco oferecido. Seu sorriso tornava a oferta irrecusável. Bem, pelo menos para mim. Quando o homem puxou outro banco de couro, com a graxa já entranhada nas fibras, e ofereceu à Deda, ela olhou pra mim. Os olhos arregalados e aterrorizados, o sorriso no rosto tentando esconder o desespero e me disse entre os dentes “pelo amor de Deus diz a ele que não vou sentar”. Eu confesso que apesar de estar com pena dela, custei a segurar o riso. Eu tentei dizer a ele, mas ele não aceitava um não como resposta. E enquanto puxava o banco esticou o braço e alcançou-a, fazendo com que ela se sentasse. Deda tremia, olhava aquela mão negra no braço dela e parecia não acreditar. O corpo rijo sentado no banco com se fora uma cadeira elétrica. As mãos sobre os joelhos e o sorriso congelado no rosto não conseguiam disfarçar o terror em seu olhar. Eu não consegui segurar o riso. Nem tentava mais. O homem achando que eu estava rindo PARA ele e não da situação. Ainda sorrindo, apontou os calendários na parede e disse “Brasil, Brasil”. Abriu uma gaveta e mostrou-nos a foto de uma moça muito bonita. A foto já meio amassada era tratada como um tesouro. Ele mostrava, beijava e repetia: “mia figlia, mia figlia. Vive in Brasile. Bahia”. Não tinha como não entender, né? Então ficamos naquele papo de loucos. “Ahh sua filha. Bonita. Brasil. Legal!”.” Si, Si”, repetia o homem, animadíssimo. Lá fora a chuva finalmente parecia diminuir. Deda me olhava  em desespero e continuava a falar entre os dentes: “Vamos embora, pelo amor de Deus”,  repetia. Eu me levantei e disse em meu perfeito italiano, “Andiamo al treno”. O sorriso do homem desapareceu, mas ele sabia que tínhamos que ir. Agradecemos e eu estiquei a mão para cumprimentá-lo. Ele puxou minha mão e me deu dois beijos estalados, um em cada bochecha. Deda imediatamente saiu em fuga discreta em direção à porta, mas não conseguiu fugir de seu destino. O pobre velho puxou-a para si e ao tentar dar os dois beijos no capricho ela se esquivou, discretamente (segundo ela) e ele acabou beijando sua testa. Infelizmente para ela, ele estava muito empolgado e depois de marcar sua testa com a mais pura saliva italiana ele se afasta, mas não muito, e demora alguns instantes até que se dá conta: um pequeno fio de saliva grossa se estendeu e eu pensei que Deda fosse desmaiar! Aquela baba nojenta unindo-a ao simpático e imundo sapateiro por fração de segundo parecia paralisá-la. Até que ele percebeu que, apesar de muito sutil, o fio não se desfaria com tanta facilidade, e meteu o mãozão negro desvencilhando-se da baba desconcertante. O pior foi ver o restinho daquele fio quase imperceptível se descolar da mão engraxada e criar uma linha úmida no rosto de minha amiga. Ela levou a mão à boca desesperada, mas não quis limpar o rosto com receio de ofender nosso estranho anfitrião.
Saímos correndo dali e eu não conseguia, e nem tentava, segurar o riso. Débora retirou um lencinho do bolso e esfregou freneticamente a testa, que quase mudou de cor. Mais adiante parou, comprou uma garrafa de água e passou a limpar o rosto com o lencinho umedecido em água mineral. Segundo ela, nem mesmo toda aquela lavação consegui diminuir a sensação da saliva em seu rosto. Desculpe-me amiga se estiver lendo isso..mas foi HILÁRIO!
Chegamos à estação às 5:50h e havia um trem parado, já esperando pelos passageiros. Que sorte! Pensamos.
Não poderíamos estar mais enganadas...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte II

Vergonha é roubar e não conseguir carregar. Já ouviram isso?? BALELA! Vergonha é fazer xixi em praça pública e não ter como se enfiar num buraco. Minha sorte (se é que se possa usar o termo numa situação como essa) é que eu estava de saia e fora minha sandalinha de couro ensopada, nada mais denunciava o vexame arrasador. 

Quando finalmente a tsunami passou só me restava tentar resgatar a dignidade perdida. Nessa hora a pequena fonte do outro lado da praça foi um alento. Todo mundo que passava refrescava-se jogando água no rosto, nos braços, e alguns só faltavam mergulhar na bendita. Sem nenhum constrangimento (já havia gasto todo ele momentos antes) tirei o o lenço que estava em meu pescoço molhei na água gelada e passei nas pernas (não dava para passar em nenhuma outra parte do corpo por motivos óbvios).  Só faltei me jogar dentro d`água.

O lado bom de pagar um mico de tamanha proporção é que depois dele não existe mais nenhuma urgência. Maravilhosa a sensação de caminhar despreocupada e sem pressa. Após atravessarmos a praça, de volta à calçada da vergonha, viramos a esquina e...lá estava ele: o banheiro público! Lindo, espaçoso e limpo. Miserável!. Eu e Débora nos olhamos. Palavras eram desnecessárias. Entramos. Juntei todo o papel toalha que consegui e depois de praticamente tomar um banho, lavei minha roupa. Isso mesmo, lavei a roupa. Quem diz que roupa suja se lava em casa nunca passou por uma situação de “emergência real” como a que eu havia passado. Foi libertador poder lavar tudo, torcer e esperar secar antes de sair de lá. Eu estava novinha em folha. Como um bebê depois de ter sua fralda trocada por uma nova e sequinha.

Saímos e começamos nossa caminhada de volta à Estação. Passava pouco das 4:30 h e nosso trem de volta à Roma sairia às 6h.

Antes de continuar, preciso contar a vocês um pouco mais sobre a Débora, afinal estaremos juntas ainda por uma longa parte dessa jornada. Eu e Débora, a Deda, nos conhecemos na faculdade, no curso de estatística da UERJ. Viajamos juntas algumas vezes para a Bahia,  onde o pai dela tem uma casa. Ela é uma pessoa light, ótima companhia e muito engraçada, mas uma das facetas mais características dela é a mania de limpeza. Ela limpa a mão toda hora, não senta no chão ou em nenhum outro lugar sem antes por um lencinho ou passar um paninho. Morre de nojo de locais que não estejam impecavelmente limpos. Organiza tudo, mas tudo mesmo, não importa onde esteja. Viajamos juntas por quase dois meses e em cada lugar que ficávamos ela refazia a mala umas 10 vezes. Dobrava, enrolava e relocava tudo, todos os dias. Era a terapia dela. Se estivesse sujo ou bagunçado, ela limpava e arrumava. Se não pudesse limpar ou arrumar, fugia correndo dali. Depois de alguns dias observando a neurose dela em fazer e refazer as malas e limpar as coisas, eu me acostumei, e já achava até engraçado. 

Bem, dito isso, continuemos a caminho da estação. 


continua...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O mais longo dos dias - Parte I

Pouco antes de viajar para a Itália eu havia lido a biografia de Francisco de Assis. A história de renúncia do jovem rico que abandona a vida burguesa e vai viver com os pobres e se dedicar a transmitir ensinamentos de amor, me encantou. Por isso, quando soubemos que Assis ficava apenas à 200km de Roma nem pensamos duas vezes. Lá fomos nós ao Termini comprar nossa passagem de trem para o dia seguinte. Saber a hora da viagem e já ter o bilhete de volta comprado nos deixava mais à vontade para curtir o passeio sem mais preocupações.
No dia seguinte lá estávamos nós, cedinho, no Termini. Como iríamos passar apenas 10 horas fora de casa (de 8h às 18h) e pretendíamos andar muito, não levamos nada nas mãos além de uma sacola com uma garrafa d'água e dois sanduíches. Débora levou no bolso algum dinheiro para o almoço e nossas passagens de volta. O calor senegalês não impediria nossa empreitada.
A viagem de 2 horas de trem foi perfeita. O trem cortava a linda região da Umbria, com paisagens de tirar o fôlego. Chegamos à estação e nada nos lembrava as imagens que tínhamos visto da cidade. Foi quando descobrimos que, na verdade, a cidade de Assis ficava no alto da montanha bem atrás de nós. A visão era deslumbrante.  Inacreditável que tenham conseguido manter toda a atmosfera medieval da cidade. A Basílica podia ser vista de muito longe. As ruas eram de pedra, a subida, à pé ou num pequeno e único ônibus, era íngreme e interminável. Diferente de tantas outras cidades onde há romarias religiosas, os visitantes de Assis eram, em sua grande maioria, jovens. Todos desceram do trem e começaram a vencer a distância até o alto, à pé. Animadas, lá fomos nós, seguindo o grupo.
Paisagem na janela..do trem.
A Umbria é uma das regiões mais belas da Itália.


Chegar lá em cima era um feito heróico. Parecia o cenário de um filme de época. Centenas de turistas seguiam quase que em fila indiana para entrar na igreja. Nos arredores pequenas casas feitas de pedra vendiam souvenirs e quinquilharias. Por algum motivo que desconheço, o grande “lance” da cidade eram os sinos.  As lojas tinham em sua entrada dezenas deles. Todos os tipos e tamanhos. Os sons se misturavam ao falatório, e todo mundo “testava” o sino antes de comprar (ou mesmo quando não tinha intenção de comprá-los dava a sua badalada..rs). A confusão era total, mas parecia fazer parte da rotina do povo de lá. Ninguém ligava praquele blem blem blem contínuo.
No alto da colina, Assis. Irretocada, desde a Idade Média.


Andamos a manhã toda, comemos os sanduíches que tínhamos levado e continuamos explorando as ruelas da cidade até que, por volta das 4 da tarde, o inevitável aconteceu. Eu precisava fazer xixi (bem, eu poderia ter dito alguns eufemismos básicos e politicamente corretos, mas nada como a objetividade). Como a cidade não tinha um padrão comercial convencional, ou seja nem um Mc Donalds por perto, começamos a procurar um banheiro público (existem muitos na Itália, graças a antiga prática das casas de banho  na antiguidade). Subimos, descemos, viramos e ..nada. Perguntamos, pedimos, jogamos charme e... nem um peniquinho sequer. Todos nós sabemos que a vontade de ir ao banheiro tem algumas etapas básicas:
- a primeira é super tranqüila. Você pensa “melhor procurar um banheiro, só por desencargo de consciência”... a vontade nem é tão grande mas melhor prevenir do que remediar.
- depois de um tempo procurando um banheiro você já começa a se culpar: “porque eu fui beber água hoje? Não podia ter comido aquele sanduíche a seco?”. A vontade aumentou um pouco mas você ainda está conseguindo raciocinar.
- depois de 45 minutos procurando um banheiro limpo você se dá conta que isso é luxo e pensa “qualquer latrina serve, só preciso de um local com paredes e um buraco no chão”. Esta etapa é o limiar entre a decência e o total desespero. A partir daí você começa a lembrar de tudo o que bebeu nas últimas 24h.
- e finalmente: O horror! O horror! essa é a fase em que pensar já é um problema. Você amaldiçoa até o descongestionante que pingou no nariz. Já está andando meio de lado e quando pára pra pedir informação já não consegue ficar parado. É uma mistura de dança com convulsão nervosa. Já viu alguém com muita, mas muita vontade de ir ao banheiro pedindo informação na hora de total desespero? É impossível manter as mãos paradas. A gente mexe os dedos, tira o peso do corpo de um pé e põe no outro, tenta se concentrar no que está falando mas só pensa em achar um banheiro, que nem precisa ser limpo. Fica rezando inconscientemente pra ouvir o interlocutor dizer “Si. Si. Si!”, na hora em que você pergunta se ele sabe de algum banheiro, e quando ouve o “No” (som quase universal que significa “você está fu$%@#!”) tem vontade de chorar.
Bom, a etapa anterior é a última chance que você tem de sair dessa situação com dignidade.
Antes de continuar, um adendo importantíssimo: Na Itália a cada esquina que você passa tem uma fonte. Cada lugar onde se cavou procurando uma ruína histórica, achou-se um foco de água limpa e cristalina. Não é brincadeira. Agora imagine: você está nos estertores do controle muscular de sua bexiga e precisa caminhar por entre fontes, laguinhos e chafarizes; e todos, TODOS fazendo aquele barulhinho típico... de fontes, laguinhos e chafarizes. Uma verdadeira tortura chinesa, ou italiana.
Estamos nós andando, quase correndo, em nossa busca frenética quando passamos por uma praça. Linda, cheia de fontes borbulhantes e ..lojinhas de venda de sino. Eu já nem conseguia falar. A impressão que eu tinha é que se eu usasse meu cérebro para qualquer atividade que não fosse o controle total de minha bexiga, eu sucumbiria. Já estava na fase da dor e da agonia absoluta. E foi aí que surgiu na Débora o desejo doentio e incontido de ...tocar um sino. Eu não conseguia acreditar, eu em plena agonia e ela queria parar e tocar um sino. Eu pedi, supliquei mas nada conseguia demove-la da idéia de jirico. Ela dizia “só um pequenininho. Um instantinho só”. E sem esperar qualquer acolhimento de minha parte, parou em frente a loja e meteu a mão no balado. O sino era o menor ali exposto. Pequeno mesmo. Um palmo de sino. Mas quando ela o tocou o som reverberou  imponente e repetitivo praça afora, tão alto quanto um sino de catedral em dia de missa.
Não bastasse a vergonha de chamar para si toda a atenção, ela olha pra mim e faz a única coisa que não poderia ter feito: Desaba em gargalhadas. Uma crise de riso dantesca.  Eu juro que tentei. Tentei não rir, tentei pensar em outra coisa, tentei olhar pro outro lado... Acho que foi o barulhinho da fonte. Toda a minha força de vontade em tentar evitar o mico foi em vão.
Era tarde demais. Já não tinha controle algum. Era absolutamente involuntário. Nunca pensei que coubesse tanto líquido dentro do corpo humano. Juro. Eu queria parar e não conseguia. Eu olhava e não acreditava. Nem parecia que era eu a responsável por aquele derrame ladeira abaixo. Acredito que deva ter sido algum tipo de experiência extra-corpórea. Só pode ser. A Débora olhava pra mim com os olhos arregalados e repetia freneticamente, tentando em vão manter a voz baixa: Para! Para! Para!.. Repetia ela entre os dentes.
Ahhh se eu pudesse....
...continua


domingo, 6 de novembro de 2011

Veni, vidi, vici!

Inspiradas por Julio Cesar, o mais famoso dos romanos, lá fomos nós com o espírito dos antigos generais: Veni, vidi, vici*! Saímos a conquistar a milenar Roma. Afinal de contas, tínhamos todas as armas necessárias: o charme brasileiro, o sotaque encantador... e minissaias incríveis! rs Sim, sras e srs... Minissaias! Porque apesar do que vocês veem hoje, eu já tive um grande futuro no meu passado.
Viu só?? Eu te disse. A minissaia era mesmo incrível!
Nem mesmo eu acredito que usei aquilo.rs

Roma é deslumbrante. Um banho de história e civilização. A Praça Navona, a Fontana de Trevi, a Praça D'Espanha, o Coliseu, as ruínas, a Vila Borguese, o Círculo Máximo, o Forum e, é claro, o Vaticano. Tanta coisa para conhecer ver e tão pouco tempo. Acho que dá pra passar um ano em Roma visitando um local diferente todo dia. E gente..Ô povo lindo! Não dá pra imaginar ficar um ano naquele lugar e não sucumbir ao pecado. Um ano?? UM MES! Só mesmo a heroína de "Comer, Rezar e Amar" (e cá entre nós, DUVIDO que ela tenha se mantido imune ao charme italiano). Aquela que nunca babou por um Carabiniere* que atire a primeira pedra.
E por falar em beleza italiana, nossa primeira incursão ao mundo maravilhoso dos homens belos foi durante o passeio à Vila Borguese.
Andamos por horas naquele lugar. Tudo era lindo e absolutamente deslumbrante. Depois de entrarmos e sairmos de jardins e lagos, de abraçarmos árvores e tirarmos fotos em pequenas pontes a óbvia e desesperada constatação: estávamos totalmente perdidas! Mas nem sombra de saber por onde ir. O desespero já começava a tirar o sorriso do nosso rosto quando avistamos um carro da polícia em uma das vias dentro da Vila. Aleluia! Lá vamos nós, já ensaiando nossas frases italianas perfeitas para a ocasião. Tínhamos tudo na ponta da língua. Era chegar e despejar nosso sotaque no carabinieri. E até que começamos bem:
_ Buon giorno, signore. Scusi...Ai que orgulho, e com sotaque caprichado. Tudo dando certo e então, o inesperado: o homem, que conversava alegremente com sua parceira policial, vira e nos encara:
_ Buon giorno, como posso aiutare? 
Silêncio. Silêncio profundo (som de grilos estridulando). Durou uns 5 segundos, mas eu juro que pareciam duas horas e meia.
Eu e Débora, mudas. A boca meio aberta, tipo boneco de ventríloquo; o queixo levemente caído; os olhos totalmente hipnotizados por aquela visão. Sim, amigos, uma visão! Eu poderia jurar que o homem se movia em câmera lenta e com fundo musical.  Eu nunca imaginei que os deuses da mitologia romana tivessem herdeiros vivos àquela altura. Mas tinham. E ele estava ali. Um deus! Os lábios se abriram mostrando dentes lindos, brancos e bem alinhados. O cabelo negro, farto e liso. Olhos verdes como o Mar Egeu. A voz profunda nos paralisou. Aquele homem não nasceu, foi esculpido. Deve ter mau hálito, pensei. Ninguém pode ser tão perfeito.
O Vaticano. Imponente, luxuoso..uma afronta!

E aí, como era de se esperar, nossas frases italianas perfeitas simplesmente desapareceram de nosso córtex cerebral. Como se tivéssemos sido ligadas em algum aparelho elétrico, subitamente, eu e minha fiel escudeira desatamos a falar. Alto e ao mesmo tempo. Uma verborragia insana e incompreensível. Só depois nos demos conta que falávamos em português.
_"Nós nos perdemos...", "Por favor seu guarda", ..."precisamos sair daqui...". As frases desencontradas não tinham o menor sentido. Nem mesmo se o pobre homem (deus) entendesse português conseguiria decifrar aquilo. Mas, com todo deus que se preze, ele sorriu mais uma vez. Nos olhos a compreensão de quem estava acostumado a estarrecer muitas fêmeas desavisadas. Ele aponta para o norte e meneia a cabeça nos mostrando a direção a seguir. Mudo. Impassível e desconcertantemente belo.
_ Grazie, grazie, grazie. Repetíamos constrangidas.
Andamos na direção indicada. Em silêncio por um tempo que pareceu longo demais. Braços dados, andar acelerado com duas irmãs Cajazeira. E então.. desandamos a rir como loucas, como se finalmente nos déssemos conta do ridículo que tínhamos acabado de passar. Rimos de chorar, de doer a barriga.
A conquista assegurada. Roma era nossa! Alguém duvida? rs

Entramos no ônibus ainda sem nos olhar, pois toda vez que o fazíamos caíamos na gargalhada.
No disc man a música começou a tocar: "Só as cachorras! As preparadas.." Quem diria... Duas cariocas espertas, cheias de GSI*, fazer um papelão desses.. Longe, muito longe de estarem preparadas.
Ô vergonha!

* Veni, vidi, vici! - Vim, vi, venci!
* Carabinieri - policiais italianos
* GSI -  Jogo de cintura escroto! rs

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Um pouco mais pra baixo...

Era o ano das "cachorras". E no meu disc man eu ouvia o bendito funk o tempo todo. Nada como um som pra distrair quando se fica uma hora dentro de um trem. Mas não era a única loucura que eu fazia.
O Brasil tinha acabado de ser penta campeão de futebol e, claro, eu usava uma camiseta do Brasil sempre que fazia uma longa viagem de trem. No início era só de provocação mesmo. Sacanagem purinha. Em algumas semanas era mais uma forma de matar as saudades de casa.
As "cachorras" e o Bonde do Tigrão, do Rio de Janeiro para Florença.
Duas balzaquianas ensinando a meninada toda do albergue a dançar. Foi demais!
A aventura estava apenas começando. Andamos de gôndola em Veneza, dançamos que nem criança com as meninas do albergue em Pádua, viajamos de ônibus sem pagar em Florença, assistimos ao Palio em Siena torcendo pelo cavaleiro mais bonito (como se entendêssemos o que estava acontecendo)... Fomos turistas adolescentes no País das Maravilhas. Aquelas tres semanas mudaram nossa vida. E aí.. bem, aí... seguimos para Roma. Bem mais pra baixo, no centro-sul da Itália.
Naquele ano já se falava que Veneza estava afundando.
Bem, melhor aproveitar enquanto podíamos, né?

Roma. Até o nome nos faz viajar no tempo. Em Roma nosso destino tinha sido traçado um mês antes. Da mesma forma que me lancei em busca de informações de Milão antes de chegar lá, tentei descobrir o melhor lugar para nos instalarmos na capital.
Eu sabia que havia um escritório brasileiro para assuntos de aviação em Roma, perguntei a um de meus colegas que trabalham no escritório daqui e consegui o telefone do escritório italiano. Beleza! Agora era ligar e descobrir se tinham alguma dica sobre onde eu poderia ficar.
Na primeira tentativa me atende um senhor que tenta de várias formas ajudar. Mas só conhece hotéis 5 estrelas, totalmente fora, digamos, de minha faixa de preços. Ele pede que eu retorne a ligação mais tarde e converse com o suboficial que estava lá há mais tempo. Eu ligo e...mais uma vez lá vem a lei universal do retorno. O suboficial conversa comigo 2 minutos e dispara "eu sei quem você é! Já a vi nos corredores aí em Brasília. Você nao vai para hotel nenhum, vem ficar conosco em minha casa."
Em Florença, na Loggia dei Lanzzi, as obras de Michelângelo e
Gianbologna ficam expostas  pra quem quiser ver.
É a cultura italiana nas ruas, sem que ninguém precise pagar por isso. Incrível!

Encurtando essa parte da história, quase dois meses depois lá estou eu e Débora, chegando ao Termini, o terminal  ferroviário em Roma, sendo recebidas pelo nosso novo velho amigo, Otavio, sua esposa e os 3 filhos.  A família interrompeu as férias e viajou de volta à Roma só para nos recepcionar. Espremidos com metades de pessego numa lata cheia de calda, lá fomos nós para nossa casa romana.
Gente eu tentei, juro. mas ela continuou torta.
Ver a Torre de Pizza foi irreal,
parecia cena de desenho animado.

Otávio nos mostra os arredores, nos leva à sua casa e, inacreditavelmente, assim como nosso amigo Antonio, de Pavia, nos entrega as chaves da casa para em seguida voltar às suas férias no litoral à 2 horas dali.

E foi assim. Roma era nossa!!

... continua.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tutti buona gente!

Vocês podem não acreditar mas a Itália é muito parecida com o Brasil. É arrumada de um jeito diferente, mas que fundamentalmente tem as mesmas aldeias.
Ao norte ficam as elites européias. Os herdeiros das linhagens de alemães e suíços, que falam dois ou três idiomas, moram em casinhas com jardins cheios de pés de romã e pereiras carregadinhas; todos (ou quase) loiros de olhos azuis e cabelos lisos que acham que são o melhor que o país pode ter.
Ao sul, roupas penduradas em longos varais nas janelas dos apartamentos e nos jardins das casas lembram um filme de Fellini. Famílias imensas que se sentam à mesa no domingo falando alto e criando confusão; os avós que falam com todo mundo (da família ou não) apertando as bochechas e dando-lhes beijos estalados e gordurosos; as Nonas te enchendo de comida e os padrinhos contando "causos" como quem participa de um concurso de calouros.
Eu não disse que era parecido??
Nosso amigo Poppo nos deixou um verdadeiro guia do norte da Itália. Os horários do trem eram impressionantemente precisos: Pavia - Verona 8:02am E era exatamente assim. Ou você chegava até às 8:01am na estação e entrava no trem, ou podia pegar o próximo ou voltar pra casa.
Encontrar a estação parecia fácil, à primeira vista. O mapa parecia de uma clareza cristalina..até que nos víamos atrasadas, correndo de mala na mão tentando achar o caminho mais rápido pra chegar lá...antes das 8 e 01!!
La Stazione! Estação de Pavia às 8:01!! 


Numa dessa vezes, indo para Padova (Padua), a Débora carregava seu livrinho de frases em italiano - "uma mão na roda", segundo ela. Paramos em frente a um jornaleiro para perguntar onde era a estação de trens. Uma frase simples, não é? Pois tente dize-la quando está com pressa, tentando escolher as palavras certas num livrinho ridículo, que ao invés de ter as frases em ordem alfabética era separado por assuntos. Muito prático. Por isso, na correria, Débora encarou o jornaleiro com olhar desconfiado e tentou:" Dove é la.....train station?" mandou ela na lata do homem. "Prego???" disse ele ainda mais desconfiado... "Prego é tu!" foi a primeira coisa que pensamos em responder, mas estávamos atrasadas e a Débora ensaiou um barulhinho de trem, e desenhou uma casinha no ar como uma verdadeira arquiteta. "Ahh La stazione! Eco! Basta girare alla prima a destra e passare al supermercato, si vede i binari".  Agora cabe aqui uma pausa. Voltando rapidamente ao post anterior: o idioma é lindo demais, né, não? Eu quase disse ACEITO pro jornaleiro. Fico até arrepiada, só de pensar ...
Em frente ao túmulo da Julieta. Isso mesmo: AQUELA Julieta! Eu nem sabia que ela tinha existido
quanto mais que tinha túmulo. E adivinha onde fica?? Pois é, Verona.
Enfim, de tudo o que o homem disse eu entendi o girare, a destra (essa mais por dedução do que por conhecimento) e supermercato. Dali pra frente a gente se virou. Grazie mile! E lá fomos nós à cidade de Santo Antônio. Quem sabe com muita fé, ele não nos conseguia um bom marido italiano (..se é que isso existe)
Praça em frente à catedral de Sto Antonio de Pádua? Onde está Wally?? Juro que eu estava ali, pode procurar.
Ahh a propósito, Sto Antonio não nos arrumou nada!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pavia

A Itália é exatamente como eu imaginava. Chegar à Pavia de onibus foi muito especial. Vimos os lugarezinhos bucólicos à beira do rio, as casas antigas e as ruas estreitas, o charme das cidades pequenas é inigualável. Senti-me nos bastidores de um filme de Fellini.

A primeira surpresa ao encontrarmos Antonio, ou melhor: a primeira depois do seu look tcheco, é que ele era gago. Vamos ao quadro: Eu não falo italiano. Nadinha. Niente. Nos comunicávamos, teoricamente, em ingles, ambos com sotaque carregadíssimo. A gagueira era um toque sutil e complicador, e totalmente dispensável, devo acrescentar. Cada frase levava uns 5 minutos para ser concluída. Uma tortura. 


Não sei se alguns de vocês tem ou teve um amigo gago. O grande problema é o seguinte: todo mundo tenta adivinhar o que eles querem dizer pra ver se terminam a frase mais rápido. Pode dizer que não, mas TODO mundo faz isso. É orgânico. Não tem como evitar. Agora pense na dificuldade de se fazer isso, por puro "vício", quando na verdade você precisa exercitar seu conhecimento do vocabulário da língua inglesa. O diálogo é caótico:
Antonio: "I'll show you a a a a..."*. Eu: "a church! a place! a museum!"** Lógico que isso só piorava a circunstância. Depois do tempo já previsto, 5 minutos, o Antonio terminava a frase "a....round"***.
Ai, meu Deus... o jantar ia ser loooongo.
Pavia e suas lindas pontes cobertas.





Antonio, ou Poppo como eu o chamava (o codinome dele no site de amizade era Poppo, porque o animal favorito dele era o hipopótamo..vai entender) levou-nos para sua casa, um prédio de dois andares, construção antiga, entrada pela lateral, igualzinha a casa de meus avós, no Rio de Janeiro. Mostrou-nos o quarto onde ficaríamos, nos deu toalhas limpas, avisou que o jantar seria servido em 30 minutos e que daria tempo de nos instalarmos... parecia o concierge de um hotel de luxo. 

Após deixarmos as malas no quarto e tomarmos um bom banho fomos à cozinha e vimos a mesa posta, uma garrafa de vinho, taças e.. dois pratos! Isso mesmo: dois! Mas o que houve? Foi a pergunta óbvia. E a resposta: Poppo estava indo se encontrar com a família na casa de praia deles, em Levanto, e não poderia nos fazer companhia. Silêncio. Nós, atônitas, ficamos ali olhando pra ele como burros para um castelo. Não me vinha nada a dizer naquele momento. Nem nos momentos seguintes.


Parque de Milão - um dos muitos passseios
em nossa 1ª semana em Pavia.
Mas, e aí Poppo, mais uma vez, nos surpreendeu. Pos sobre a mesa um chaveiro e disse, levando o tempo necessário para tal: "A casa é de vocês. Fiquem à vontade. Sobre a mesa vocês tem os mapas da cidade, horários de trens, programação para uma semana, e todos os passeios possíveis saindo da cidade para as cidades próximas". Inacreditável!  O homem nunca nos vira. Me conhecia há algumas semanas e mesmo assim só sabia de mim o que eu mesma havia contado. Aquele homem magro, simples, com barba desgrenhada e completamente gago estava entregando a duas estranhas as chaves de sua casa; suas memórias e tesouros, como se fossemos amigos de infância.

E tem quem duvide da lei universal do retorno ou da terceira lei de Newton.


continua...

*   "Vou mostra-lhes..."
** "Uma igreja! Um lugar! Um museu!"
***"Por aí"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Buongiorno, principessas!

Não sei vocês, mas eu acho italiano o idioma mais lindo e sexy do planeta!

Não importa o que se fale, pode estar certo que vai soar como um cântico de amor. Agora feche os olhos e imagine um daqueles deuses italianos te dizendo em voz sussurrada e sotaque mais doce que rapadura fresca: "Il mio cane è scappato e io penso proprio di una madre noiosa." Gente!! É tudo, não é? Enfim.. foi nesse país, onde todo mundo fala italiano com sotaque, que eu acabara de chegar. Ahh a propósito a frase sensual quer dizer "Meu cachorro fugiu e eu acho sua mãe uma chata.". Não é lindo?? rs

Logo no aeroporto, Malpenza (até o nome é lindo, né?), em Milão, ja nos deliciávamos ouvindo a sonoridade do idioma. Ao sairmos da alfândega um guarda nos  abordou "dove sono le ragazze?" ahhh que liiindo!!! "Brazilianas", respondi com cara de quem entendia tudo. Aí a coisa foi pro brejo. Ele desatou a falar, numa rapidez de fazer inveja a repentista nordestino. Eu achando que iria tirar uma onda mas não teve jeito, mandei meu inglês nele e disse que não entendíamos nada de italiano. Ele parou e disse em inglês, bem devagar; "Vieram trabalhar como modelos?"  ..... Peraí que tem mais um pouquinho de ...... (...e juro que ouvi uns grilos nessa hora).

Vou ter que mudar de parágrafo aqui. Vamos ser honestos. Duas balzaquianas chegando em Milão. Uma medindo exatos 1m48, cujo peso só chegaria aos 40 quilos se ela estivesse segurando uma mala de 30; a outra com mais ou menos 3 arroubas, bem pesadas, distribuídas num "corpão" de 1m58, e o camarada pergunta se fomos trabalhar como modelos?! Conclusão: aquele carcamano safado estava de sacanagem com a nossa cara! Ele já estava ensaiando a próxima gracinha, o sorriso malicioso brotando no canto da boca, quando me ouviu dizer bem séria: "Sim! Exatamente." Peguei-o desprevenido, óbvio. Ele queria nos sacanear, mas não me conhecia... Afinal de contas meus antepassados foram os antecessores do termo "curtir com a cara dos outros". Ficou me olhando com vontade de responder mas.. nada. Sem chance, Pepino di Capri!
Teto do Dumo em MIlão - ô lugar pra ter gente bonita!


Após um muito bem colocado "Arrivederci", lá fomos nós arrastando a mala pela rua em busca do ônibus para Pavia, onde encontraríamos meu amigo Antonio, o planejador.

De olho em todo o itinerário do ônibus, contávamos todos os pontos que ele havia nos indicado. Lojas, prédios, igrejas (e quantas igrejas...) e finalmente chegamos à parada onde o encontraríamos. E lá estava ele.


Eu, Deda e Dr. Antonio, nosso gentil anfitrião Paviense.
Quando conversamos com alguém pelo computador você sempre cria a imagem da pessoa com quem está falando. E a imagem que criei não tinha nada a ver com a que eu via. Num país onde os homens e mulheres são conhecidos por sua beleza ímpar eu não poderia dizer que ele possuía uma beleza clássica. Era inacreditável que ele fosse italiano. Talvez húngaro. Não. Tcheco. Diferente de tudo o que eu havia imaginado.  O Antonio era magro (ainda é), muito magro. Com roupas largas e barba enorme. Não conseguia ver nele o médico inteligente e falante com quem eu conversava. Mas ele era. A primeira coisa que disse quando saímos do ônibus foi "Buongiorno, principessas!". Daí pra frente foi só alegria. Mas essa história fica pro próximo capítulo ... :-)