Eu sabia que os trens europeus são extremamente pontuais. Mas era a primeira vez que via um parar na estação antes do horário e ficar esperando os passageiros chegarem. Era o nirvana ferroviário!
As passagens de volta não tinham lugares marcados por isso entramos rapidamente e nos acomodamos. Incrível como 10 minutos podem demorar tanto a passar quando você não se sente confortável. Havia algo errado naquilo. Como só havia um trilho na estação, um binário como dizem os italianos, os trens de ida ou vinda paravam no mesmo lugar. Ficamos ali olhando pela janela aquele bando de gente na estação. Porque será que ninguém entrava? Era o que não conseguíamos parar de pensar. De repente a Débora notou uma coisa e pareceu se alarmar. Ela pega meu braço sem tirar os olhos da janela e diz: “Aquele grupo ali não veio com a gente de Roma?” Eu olhei. Sim, vieram, pensei. Mas não precisei falar nada. Imediatamente olhei pro passageiro do banco ao lado e perguntei: “Excusi. Questo é Il treno per Roma?”. Nem sei porque perguntei, mas sabe como é..a esperança é a última que morre. A resposta era esperada mas nem assim foi menos alarmante: “No. Questo trenó é per Firenze”. Florença! Duas horas de viagem à Florença, de onde tínhamos chegado há alguns dias. Mas isso não era a pior parte. Não tínhamos um único euro furado. Nada. Nem passaportes, nem moedas, nem comida. Nada! Ir parar em Florença seria absolutamente desastroso.
A resposta atingiu-nos como um raio. Levantamos imediatamente e corremos para a porta. Só para ouvir o tsssssssssss da bendita se fechando. Não sei porque mas nossos gritos desesperados não ajudaram. Devíamos ter tentado algo mais exotérico, como o abre-te sésamo. Mas nem pensamos nisso. E foi ali, naquele momento que ele chegou...o PÂNICO! Puro, crescente, paralisante e absoluto.
Eu queria tentar encurtar essa história, mas muita água rolou depois daquilo, e não era minha culpa dessa vez...rs E, como eu mencionei antes, aquele foi, sem sombra de dúvida, o mais longo dos dias de nossa fatídica viagem. Pelo menos até aquele momento...
Ver o trem se afastando e a estação diminuindo tão depressa foi aterrador. O que faríamos? Como voltaríamos? Onde iríamos dormir? Comer? Isso tudo pensamos em fração de segundo e dava pra perceber o medo só de olhar pra nós. De pé diante da porta fechada do trem, a paisagem voando pela janela, olhávamos uma pra outra.
As portas de entrada e saída dos trens italianos ficam num espaço de 3m x 2m separados entre os vagões por duas portas de metal. Estávamos ali há alguns minutos, em silêncio, olhando uma pra outra. Lágrimas nos olhos, mas nenhuma se atrevia a deixá-las rolar ou estaríamos assumindo nosso desespero e isso tiraria nossa capacidade de raciocinar. De repente, sem que nenhuma das portas se abrisse, pelo menos não que o percebêssemos, um homem surgiu no canto de um dos vagões. Estranhamente trajando um terno branco, meio encardido, com sapato branco e gravata branca. O homem olha pra nós e diz: ” ma qui passa”? Aquela pergunta nos chamou de volta à realidade mas ao mesmo tempo teve um efeito bombástico sobre nós: desencadeou uma verdadeira verborragia em cima do pobre coitado. Pense! Duas desesperadas falando ao mesmo tempo aos berros e, depois do transe, chorando como duas bezerras desmamadas.
O homem tentava entender mas era tudo uma grande confusão. E ele resolveu por ordem no barraco. Levantou as mãos e quase gritando disse a expressão mais fofa que ouvi na língua italiana : “Aspeta um átimo” (não é lindo?)(Espera um instante). Uma de cada vez! Disse ele. Nós entendemos, mas a ansiedade nos atropelava. A Débora parou de falar, olhou pra mim e eu tentei: “ Doveva in treno per Roma e siano in trenó per Firenze. No soldi per retorno”*. Vocês podem pensar o que quiserem, mas que meu vocabulário deu uma evoluída..ahhh isso deu! Tudo bem que falei o tempo de verbo errado, e na ordem mais louca possível, mas era italiano, pelo amor de Deus. (*Estávamos indo pra Roma e estamos no trem pra Florença. Não temos dinheiro pra voltar).
O homem fez sinal para pararmos de falar. Pos a mão no bolso do paletó e tirou um celular. Falou com alguém em italiano e tão rápido que a única coisa que entendemos foi o bendito “per Roma e per Firenze”que já nos dava arrepios. Lá fora o sol já ia baixo e a paisagem continuava voando diante de nós. Não passaram 10 minutos entre nossa triste descoberta e o telefonema do estranho benfeitor, quando ele desligou o telefone, olhou pra nós e fez um gesto universal: levantou os polegares e sorriu. Depois bateu de leve com a mão na testa, o que pra bom militar significa “Tá comigo!”. Nós literalmente nos jogamos em cima do homem. Grazie, Grazie, grazie e ficamos ali, grudadas no cara. Ele não conseguiria nem se coçar sem esbarrar em uma de nós.
Ele bem que tentou explicar o que ia fazer mas só sabíamos que ele tinha erguido os polegares e mostrado os dentes e pra nós isso queria dizer: estamos salvas (ou ele é um tarado pervertido, mas naquela hora.. até isso era lucro!).
De repente, pouco mais de dez minutos depois, o trem diminuiu a velocidade. Olhamos em volta. Nada. Porque o trem pararia no meio do nada? Ele foi parando, parando e finalmente conseguimos ver uma estação que nos parecia abandonada. Só uma plataforma no meio da paisagem e alguns outros trilhos se emaranhando no chão. Enquanto o trem se aproximava vimos outro trem parado, no lado oposto ao nosso, na velha plataforma. Muito estranho. Nosso trem finalmente parou. As portas se abriram e ficamos olhando sem saber o que fazer. Nosso benfeitor salta do vagão e sobe numa pequena calçada ao lado dos trilhos. Olhamos surpresas mas ainda sem saber o que fazer. Ele nos chama com as mãos e pulamos para fora. O trem fecha as portas e começa a se mover sumindo em instantes. Em volta tudo escuro, só o homem, os trilhos e a plataforma ao longe, com o trem lá, parecendo respirar pesadamente enquanto esperava. Olhamos pro homem e pela primeira vez ele parecia estar impaciente. “ Andare! Attraversare i binari. Il trenó attesa per voi”. Foi a melhor lição de italiano que tivemos na vida. Não precisou de segunda aula. Ele disse, nós nos entreolhamos e saímos em disparada pelos trilhos sem nem mesmo olhar pros lados. Subimos a plataforma de um salto só e um homem, provavelmente o fiscal do trem, com seu uniforme e lanterna na mão gritou pra nós: “Andare, andare!”. Estávamos quase nos jogando dentro do trem quando a Débora gritou “não agradecemos ao homem”. Nos viramos para a direção de onde viemos para agradecer e surpreendentemente não vimos absolutamente ninguém. Nem sombra de ser vivo. Não havia rua, escada, túnel, absolutamente nada além da pequena calçada e de um enorme muro de uns 3 metros de altura. Eu lembro exatamente da expressão no rosto da Debora quando olhou pra mim. “Cadê o homem?”, ela disse. Era simplesmente inacreditável. A coisa mais inverossímil de toda aquela viagem. bem, nós chegamos à nossa própria conclusão e eu deixo que vocês cheguem ás suas. O fato é que ele não estava em lugar algum, mas não dava mais tempo de procurar.
O fiscal tinha acabado de usar seu apito ensurdecedor em nossos ouvidos. Nos jogamos pra dentro do trem e imediatamente ele começou a se mover. O calor era intenso mas milagrosamente aquele trem tinha ar condicionado. Nos sentamos e a primeira coisa que fiz foi perguntar ao passageiro à minha frente pra onde ia o trem. “Per Roma”, disse, para depois completar, em inglês: “E não sei como fizeram isso mas estamos parados aqui por uns 15 minutos”. Vocês acreditam numa coisa dessas?? Gente! Aquele era o NOSSO trem! O trem que deveríamos pegar às 6 da tarde, na estação de Assis. Aquele homem de branco, que nem fazemos idéia de onde surgiu, conseguiu parar um trem no meio do nada e faze-lo esperar por nós! Ninguém acreditaria nisso.
Já acomodadas olhamos em volta e achamos o trem muito diferente do trem no qual viajamos de manhã. Esse era limpo, com confortáveis bancos individuais em tecido azul com encosto para a cabeça e braços anatômicos. Isso sem falar no ar condicionado. Antes mesmo de chegarmos à estação de Assis o fiscal abre a porta do vagão e entra pedindo os bilhetes. Até aí, tudo às mil maravilhas. Quando parou ao nosso lado e perguntou pelo “bilheto”mostramos nosso bilhete meio amassado e esperamos. O homem olhou o bilhete e para nossa surpresa não o perfurou e devolveu como fez com o dos outros passageiros. Ele os devolveu e explicou em italiano que aquele era o vagão da primeira classe e que o nosso era o da classe econômica 2 vagões à frente. A Débora olhou pra mim e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa ou pior, SE LEVANTASSE pra mudar de vagão, eu peguei os bilhetes, sorri pro homem e disse “SI, si, Braziliana”. O homem disse tudo de novo, dessa vez mais devagar, mas não perdi a pose “Si, si, Brasil, futebol, si, si, grazie” depois disso foi só balela em português mesmo, sempre com o mesmo sorriso de quem rasga dinheiro e come queijo de cabra azedo. O cara tentou, coitado. Falou tudo de novo e só consegui obter de nós a mesma reação idiota. Ele deu de ombros, falou alguma coisa e foi embora. Nós conseguimos! Ahhh e como nós merecíamos!!!