segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

As sereias do Mediterâneo

O ônibus seguia, lotado e vagaroso, entre as colinas rochosas da Ilha. A vista era fabulosa! Não, peraí: FA-BU-LO-SA! Assim, dito sílaba à sílaba. De cair o queixo mesmo. Lá embaixo o Mediterrâneo, escuro e denso, se estendia até onde a vista alcançava. Até o mar na Itália é diferente, pensei. A sensação era indescritível. Estávamos nos aventurando, num mundo totalmente novo. Quem diria que eu, filha de uma dona de casa e de um funcionário público, estaria um dia diante de uma paisagem como aquela. Era surreal. Coisa de cinema; tão bizarro quanto um filme do Tarantino.
O abençoado autobus de Ischia. Charmoso, né?? Vai lá...
Veja se aguenta uma viagem de uma hora em pé nessa gracinha..

Tentando nos equilibrar, íamos olhando tudo, na esperança de avistar o tal albergue do qual só conhecíamos o nome. Cinqüenta minutos de viagem, logo depois de uma curva entre duas enormes rochas, lá estava ele: o albergue mais chic que já vimos! Com piscina e tudo, diante daquele mar de azul escuro e profundo. Só uma coisa não constava no “script”: o albergue ficava a uns 100 metros da praia.. isso se pudéssemos descer penduradas numa corda! Do alto da enorme rocha podíamos ver a praia lá embaixo. Chegar nela eram outros quinhentos. Teríamos que percorrer um caminho descendente de pelo menos 2 km.. e amargar uma subida tão íngreme que eu já lamentava não ser descendente de robustos cabritos monteses.
Nos arrastamos para dentro do albergue e demos de cara com o dono, vestindo uma camisa do Brasil. Era mesmo como chegar em casa. A alegria e a simpatia com que ele nos recebeu foi um alento depois daquela jornada ulissiana. Ele nos mostrou nosso quarto: quatro camas, um banheiro e uma imensa varanda de frente pro mar; nos alertou que teríamos que dividi-lo com duas inglesas que chegariam em seguida. Depois de dividirmos um quarto sem banheiro com 10 meninas em Florença, dividi-lo com duas inglesas era fichinha, vocês não acham? Mas não esqueçam de uma coisa: eu estava lá! O que torna o “óbvio” a coisa mais incerta do universo rs. Mas isso é história pra depois.
Bem, não me lembro se comentei com vocês, mas a grande maioria dos albergues não permite que os hóspedes fiquem no quarto no período de 10 da manhã às 5 da tarde. Todos devem sair. Como chegamos por volta de uma da tarde e estávamos famintas e cansadas resolvemos descer até a praia e fazer o reconhecimento do terreno. Depois comer alguma coisa e subir por volta das 6 para tomar banho e, enfim, dormir.
A vertiginosa e empolgante descida até o mar..
(ps: Eu disse que já tive um grande futuro no meu passado, viu?)
Trajando nossos belos biquínis cariocas (quem conhece sabe a diferença..rs pelo menos comparado aos europeus) começamos nossa caminhada montanha abaixo até a praia de Maronti. A descida era vertiginosa. Dava medo. Nunca pensei que sandálias havaianas pudessem ser tão perigosas. Associadas à areia e pedra viram uma verdadeira máquina de tombos. Mas o que era um tombo a mais ou a menos para quem tinha pago a quantidade de micos que paguei? Eu me equilibrava 2 metros e escorregava 10. Talvez até mais do que isso se contarmos a vergonha do “esquibunda” improvisado. O que parecia ser o terror de todo andarilho acabou sendo providencial: chegamos lá embaixo bem mais rápido do que imaginávamos. O derriére todo ralado, mas a moral intacta.
Finalmente alcançamos um local plano e pudemos voltar a caminhar sobre duas patas como qualquer homo erectus que se preze. Entramos na vila e fomos direto procurar uma entrada para o mar.
Creio que todos vocês já tiveram o privilégio de ir à praia. Não importa se no Rio de Janeiro, no sul, no nordeste... ou nas Bahamas. Todo mundo se lembra da sensação única de dar aquela paradinha no calçadão e olhar o mar primeiro para depois pisar na areia quente e procurar um lugarzinho ao sol. A sensação é de conquista. De trabalho realizado. “Cheguei!” E foi exatamente assim que me senti.
Diferente de todas as praias que conheci, aquela não tinha areia. Parecia areia. Pregava na gente como se fosse areia. Mas não era areia. Eram pequenas pedrinhas roliças e negras. Coisa de terreno vulcânico; motivo também da água quente das termas de Ischia. Legal, né?
Essa foto eu TINHA que postar: na verdade era só para mostrar o lixeiro.
GENTE!! OLHA O LIXEIRO ITALIANO!
Moreno sarado, alto e todo estiloso com seu óculos Ray Ban.


Procuramos um local onde fazer nosso “montinho” e deitar ao sol como boas cariocas e assim o fizemos. Antes de aventurarmo-nos no Mediterrâneo, que de perto era ainda mais escuro e assustador, resolvemos descansar o esqueleto. Esqueleto nada, precisávamos dar um “refresco” para os nossos traseiros doloridos.
Deitamos e ficamos apreciando a paisagem e observando de perto a fauna local. O curioso a respeito das européias é que elas são cheias de pudor quando o assunto é bunda. Mas fazem top less como se tivessem ainda os peitinhos de uma adolescente. E eu garanto a vocês que 99,99% delas..NÃO TEM! Chegava a ser bizarro ver a mulherada de peito de fora usando calcinhas imensas e fofas; pareciam estar vestindo fraldas geriátricas. Ahh e como elas gostam de brilho! Biquinis dourados, prateados ou cheios de paetês e lantejoulas era o que mais se via na praia.
Deda e seu biquininho carioca:
sensação nas areias  escuras da Praia de Maronti.
No detalhe... os olhares masculinos ao fundo.
Levanto-me para fotografar e noto que todos os jovens italianos que estavam perto de nós subitamente mudaram de posição. Todos viraram de bruços, se virando de costas pro mar. “Que estranho”, pensei. Mas então pude ver o motivo da súbita mudança: a Débora tinha tirado o short. O fato dela ter uma bundinha minúscula não parecia ser um fator depreciativo, o que mais chamava a atenção dos “ragazzi” era o tamanho do biquíni! É claro que registrei o momento inusitado! Deda e seu biquininho infanto-juvenil sendo alvo de todos os olhares masculinos daquela faixa de areia. Hilário!
Quando ser “assediadas” cansou-nos, fomos para a água. No albergue já havíamos sido avisadas que era muito seguro deixar as coisas na areia. Não haviam “ratos de praia” em Ischia. Amém! Menos uma preocupação. Finalmente, depois de 3 semanas na Itália, experimentamos a sensação de mergulhar no Mar Mediterrâneo. Que horror! Gente, a água era um gelo! Mas isso não é o pior. Estávamos acostumadas a entrar no mar de mansinho. Um passinho aqui outro ali, até que a água lentamente subisse à nossa cintura para o mergulho magistral. Não sei se em toda costa leste da Itália acontece o mesmo, mas naquela praia especificamente o mar era tão traiçoeiro que apesar dos quase 40 graus do verão europeu, foi a primeira e última vez que nos aventuramos a entrar. O primeiro passo colocou a água na altura de nossa canela. O segundo nos cobriu totalmente. Como se tivéssemos entrado num enorme buraco negro cheio de água salgada e areia, muita areia. E as ondas nos puxavam cada vez mais para o fundo. “Então é por isso que fica todo mundo na areia e o mar quase não tem ninguém!”. Brilhante! Que maneira de descobrir.
Quando conseguimos nos livrar das ondas e por os pés de novo em areia quase firme, nossos cabelos estavam cobertos de areia, os biquínis completamente desajeitados e os olhos arregalados com se tivéssemos sido salvas de um naufrágio. Em resumo: parecíamos duas loucas resgatadas do maior “caixote” de nossas vidas! Ninguém parecia notar o sufoco que tínhamos passado. Menos mal. De acordo com a física quântica aplicada: a vergonha fica pior na proporção em que o mico é presenciado. Ou seja: quanto mais gente vê, maior o mico! rs

... continua

3 comentários:

  1. Estou adorando a história, Dé! Continua a escrever, por favor... Fico imaginando as cenas e não consigo parar de rir!

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  2. Nath querida, só porque sei que alguém, além de mim mesma, ri dessas minhas loucas aventuras é que continuo escrevendo. beijo grandão pra vc.

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