quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O "bota-fora" inglês

Vocês hão de convir que depois de passar um momento inglório daqueles, todo o resto da tarde foi lucro. 
Ficamos andando pela praia mais um tempo e os olhares eram todos pra gente. Vejam vocês... se me contassem que duas mulheres caminhando na praia chamavam para si toda a atenção, eu diria "UAU! Deve ser uma sensação incrível". Não é! Que coisa mais bizarra. Não chamávamos a atenção por nossa incomparável beleza, mas sim pelo tamanho de nossos buquinis; que até então nos pareciam normais e em questão de segundos se tornaram minúsculos e indecentes.

Constrangidas, mas com a auto-estima lá em cima..rs, decidimos sair da praia e procurar um lugar para comer antes de voltar ao albergue; só para descobrir uma outra interessante faceta de nossos amigos europeus: eles prezam como ninguém a hora da siesta! Restaurantes, lojas, comércio em geral, fecham de 12h as 16h para que os gentis trabalhadores possam dormir. Não é brincadeira. Eles dormem. Um restaurante fechar na hora do almoço é tão absurdo que não parece verdade. Mas é.

Lá fomos nós de volta ao albergue cansadas, cheias de areia preta grudada no corpo e mortas de fome. Ao chegarmos ao quarto deparamos com as duas jovens inglesas que já estavam se instalando. Apresentações de praxe, Heather e Ann pouco falaram e já caíram no mundo. Nós, banhadas e cheirosas saímos para procurar um lugar para comer e voltamos cedo pro quarto. Sabíamos que o albergue não permitia a entrada após as 23 horas e estávamos cansadas demais. Na manhã seguinte pegaríamos a balsa bem cedo para ir à Napole encontrar Anthony, e confesso que estava ansiosa por conhece-lo. 
Débora, Antonio (com sua camiseta do Brasil) e eu,
em frente à piscina do albergue.


Deitamos cedo e já estávamos dormindo havia um tempo quando a porta se abre num estrondo e as inglesas entram: bêbadas como dois gambás! Elas cantavam, riam e tentavam ficar de pé mas caiam uma sobre a outra a cada passo. Uma zona!

Passados alguns minutos alguém bate à porta e começa a falar, em inglês, pedindo que abram a porta. Como as meninas não se mexeram e a pessoa do lado de fora continuava batendo, tive que me levantar e fazer as honras. “Afinal de contas, o que está acontecendo?”, disse eu cheia de marra ao abrir a porta. Deparei-me com o dono do albergue e a mulher dele. Os dois com cara de poucos amigos e roupas de dormir. Ele me pediu desculpas, entrou e começou a falar com as duas meninas. Uma vomitava no banheiro e a outra dava gargalhadas como uma louca sentada no chão ao lado da cama. Ele gritou por alguns minutos, pegou as mochilas das duas, depois de certificar-se de que não eram minha ou da Débora, e arrastou tudo pra fora do quarto. A esposa dele entrou no banheiro, ajudou a Heather a lavar o rosto e tirou-a de lá pelo braço. Parou, levantou Ann do chão e, numa tentativa de não ser muito rude, arrastou as duas pra fora do quarto. A Débora, que não entendia inglês, só olhava tudo com os olhos arregalados e a respiração presa. Eu fiquei ali, parada ao lado da porta recém-aberta esperando para ver como aquilo ia acabar. Eles saíram, ele olhou pra mim como se pedisse desculpas, deu de ombros e fechou a porta atrás de si.

Parecia que um furacão tinha passado ali. Não se passaram mais de 10 minutos entre o momento em que elas entraram no quarto, à hora em que foram defenestradas dele sem maiores cerimônias. Que diabos foi aquilo?
Só na manhã seguinte, durante o café da manhã, Antonio, o protagonista do “bota-fora” da noite anterior, veio sentar-se à mesa conosco e puxou assunto. Ele se desculpou e explicou: os jovens europeus não têm limites. Por isso eles mantinham uma política rigorosa: ninguém entra depois das 23h; não se admitem hóspedes bêbados ou drogados e absolutamente ninguém fica no albergue entre as 10h e as 16h. “As regras são claras e estão afixadas num quadro de avisos na recepção”, explicava ele, tentando minimizar o choque dos acontecimentos. “Eu avisei a elas antes de saírem, mas já esperava que isso acontecesse. Quando elas não chegaram até às 23h, eu e minha esposa esperamos acordados. Ahh os ingleses... Sempre os ingleses..” disse ele, com ar cansado.

Na verdade o álcool é um problema muito sério entre os jovens europeus. O fato de estarem numa ilha tornava o controle sobre as drogas mais pesadas ainda mais rigoroso, o que levava os jovens a consumir muito mais álcool que o habitual.

Avisamos a ele que estávamos indo à Napole e que voltaríamos à noite. Despedimo-nos e seguimos para esperar o ônibus, que nos levaria à balsa, que nos levaria ao trem, que nos levaria ao encontro de meu amigo Anthony. A jornada era longa mas a aventura valia a pena...  e que aventura!


...continua

2 comentários:

  1. Vai dizer que você já não estava pensando como se livrar daqueles dois corpos...

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  2. O que é isso, Normitcha?? Eu sou uma pessoa magnânima que entende as limitações e os exageros dos menos favorecidos. (Íamos colocar pó de mico nas camas delas e dizer que tinham pulgas no quarto..rs)

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