Ao
sair na rua senti o bafo quente do calor indiano, seco e infinitamente mais
abafado do que o ar fresco da
madrugada, quando chegamos. Nem quero saber quantos graus faz. O psicológico
pode me afetar, penso.
Antes
de mais delongas, um detalhe muito importante, meu queridos amigos leitores: Para
comer alguma coisa na Índia é necessário, primeiramente, que a fome esteja
acompanhada de uma boa dose de coragem. E das grandes! O lugar é tão sujo e tão
cheio de gente que desanima o mais faminto dos peregrinos. O cheiro de curry
parece ter sido usado como um “Bom Ar” urbano. Dito isso, prossigamos...
Andamos
um bom tempo no meio do povaréu suado e apressado e não vi um só supermercado.
Supermercado? Ok, vou simplificar: não vi um só mercado, quitanda, vendinha..
nada. Pergunto ao Santosh se o mercado ainda está longe e ele responde:
“estamos quase lá”. De repente, depois de uma das 356 esquinas deparo-me com a
maior feira ao ar livre que já vi. Espalhados por todo o lado estavam panos,
colocados no chão, contendo os legumes e verduras vendidos pelos produtores
locais. Mas eu não conseguia reconhecer nenhum deles. Nada me parecia familiar.
E foi então que observei um detalhe: os legumes, vegetais e verduras eram os
mesmos que eu conhecia, mas muito menores que os que eu já tinha visto. A
cebola era do tamanho de um limão. As batatas então eram ainda menores. O solo
aqui não deve ajudar, pensei. Mas eu precisava de cebolas, e de tomates e de um
monte outras coisas. Eu queria fazer um strogonof. Definitivamente, eu não iria
comer nada que não tivesse sido preparado
por mim. E não cozinharia nada que
não tivesse sido lavado umas mil vezes. Isso era certo.
Escolhidas
as miudezas, eu precisava do peito de frango. Aviso ao meu guia/amigo/nativo e
ele me leva ao local onde são vendidas as carnes (não a de vaca, é claro). Eu
espero na fila, de umas 8 ou 9 pessoas (tudo na Índia tem fila) e quando chega
a minha vez pergunto pelo “chicken breast”*.
O homem me aponta umas carninhas muito brancas e pequeninas e eu olho para ele
como se explicasse um problema matemático a um analfabeto: “I need chicken breasts”*. Ele aponta
pras tais carninhas sem-graça e fala algo que não consigo compreender (será
híndi?). “Not quails, I need chicken*”,
repito quase gritando (vai ver ele não me ouvia bem no meio daquela balbúrdia
toda, penso). Santosh se mete no papo, já irritado com a demora. Fala algo em
híndi e o cara embrulha duas das tais carninhas sem-graça. Eu me viro pro
Santosh já nervosa e repito mais uma vez que não quero codornas, preciso de
peito de frango! Ele olha pra mim e, para minha surpresa, diz que aquilo era peito de frango, e não existiam
maiores que aqueles! Que diabo de galinha é essa?! Penso..mas não falo. E
continua..”what´s quail?!”. Sabe
quando leva um tempo para você processar uma informação? Eu fiquei ali parada,
olhando pra ele, tentando achar uma forma de dizer a ele tudo o que se passava
na minha cabeça:
Primeiro - que aquilo
não PODIA ser peito de frango, era pequeno demais;
Segundo
- que se aquilo realmente era peito
de frango, eu iria precisar de uns 10, para fazer o almoço de três pessoas;
Terceiro
- como diabo eu iria explicar a ele o que era uma codorna?!
Depois
de árdua batalha pelos 10 peitos de frango (disfarçado de codorna), e os
minúsculos legumes, fizemos todo o caminho de volta ao apartamento. Ele ansioso
por provar o tal “strogonof”, e eu rezando pra Débora ter terminado a faxina,
assim eu não teria que me aventurar na terra do mofo adormecido.
*Chicken
breast – peito de frango
*I
need chicken breasts – Eu preciso de peitos de frango
*Not
quails, I need chicken – Codornas não, preciso de frango
kkkkkkkkkkk...quase vi vc imitar uma galinha para ser melhor entendida!
ResponderExcluirfaltou muito pouco, amiga..rs O problema é que tudo o que vc diz ou a maneira como age num país onde os costumes são TÃO diferentes dos seus, pode e SERÁ usado contra vc rs rs
ResponderExcluirEu ia morrer de fome né amiga, porque eu não cozinho....NADA!!!! Acho que vou ter que tirar a Índia do meu roteiro ou então levar muitos enlatados para garantir a minha sobrevivência....rsrsrsrs
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