Pra descer todo santo ajuda. Todo mundo sabe disso. A volta à estação durou pouco mais de 15 minutos e chegamos lá mais cedo do que imaginávamos. A cidade de Assis, a parte fora dos muros medievais, se desenvolveu em torno da ferrovia. Na rua em frente à estação havia algumas pequenas lojas e do outro lado da estação havia uma igreja linda com uma imagem dourada encimando a torre. Como teríamos que esperar ainda mais de uma hora pelo nosso trem, saímos a explorar o vilarejo.
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| A bendita estação de Assis...são tantas emoções. |
Atravessamos os trilhos e fomos ver a igreja que nos chamou a atenção. Mal chegamos do outro lado, sem nada que nos alertasse sentimos os primeiro pingos de chuva. Inesperadamente o céu desabou sobre nós. Corremos até alcançar a única marquise da rua, em frente à uma pequena loja. Uma sapataria. Não uma sapataria comum, com sapatos na vitrine e vendedores desagradáveis te cercando. Uma sapataria onde se faziam sapatos. Era realmente inusitado. A marquise era minúscula, mas para quem enfrenta um dilúvio era uma verdadeira benção. Estávamos lá há pouco mais de 1 minuto, se tanto, nos espremendo uma na outra para aproveitar o espaço, quando a porta da loja se abre. Para nossa surpresa surge a figura mais bizarra que tivemos a chance de ver até então, durante a viagem: o sapateiro. Um típico sapateiro italiano. O homem era baixo, bem mais baixo que eu, tinha o cabelo totalmente grisalho e ensebado; usava uma galocha imunda e um avental de borracha, que acredito deva ter sido branco num passado bem distante. O rosto, os braços e as mãos absolutamente imundos. Graxa da cabeça aos pés. Ele sorriu e desatou a falar num italiano acelerado e incompreensível (como se o fato de falar devagar pudesse trazer algum alento para nós..haha.). Ele repetia a mesma frase e gesticulava loucamente. Vendo que não entendíamos nada, subitamente parou de falar, me pegou pelo braço e me puxou pra dentro da loja; a Deda agarrada em meu outro braço.
Parecia que tínhamos entrado em um universo paralelo. Nunca poderia imaginar que uma fachada tão pequena e inexpressiva pudesse ser a porta de entrada para algo com tamanha dimensão. Era como a entrada para a bat caverna. O lugar era enorme. Haviam sapatos espalhados por todo lado. Couro curtindo, pendurado nas paredes e nos varais improvisados (pelo menos é o que parecia), tanques de tinta e graxa. Muita graxa, por todo lado. Na parede, calendários antigos cheios de anotações, marcas e ...graxa.
Ele puxou um banco e apontou para que sentássemos. Os gestos amistosos e exagerados dispensavam palavras: ele só queria nos tirar da chuva e ser gentil. Pobre homem. Ele não imaginava que ao nos fazer entrar em seu local de trabalho, estava expondo a Deda a um circo dos horrores. Eu, rendida pela gentileza do homem, sentei-me no banco oferecido. Seu sorriso tornava a oferta irrecusável. Bem, pelo menos para mim. Quando o homem puxou outro banco de couro, com a graxa já entranhada nas fibras, e ofereceu à Deda, ela olhou pra mim. Os olhos arregalados e aterrorizados, o sorriso no rosto tentando esconder o desespero e me disse entre os dentes “pelo amor de Deus diz a ele que não vou sentar”. Eu confesso que apesar de estar com pena dela, custei a segurar o riso. Eu tentei dizer a ele, mas ele não aceitava um não como resposta. E enquanto puxava o banco esticou o braço e alcançou-a, fazendo com que ela se sentasse. Deda tremia, olhava aquela mão negra no braço dela e parecia não acreditar. O corpo rijo sentado no banco com se fora uma cadeira elétrica. As mãos sobre os joelhos e o sorriso congelado no rosto não conseguiam disfarçar o terror em seu olhar. Eu não consegui segurar o riso. Nem tentava mais. O homem achando que eu estava rindo PARA ele e não da situação. Ainda sorrindo, apontou os calendários na parede e disse “Brasil, Brasil”. Abriu uma gaveta e mostrou-nos a foto de uma moça muito bonita. A foto já meio amassada era tratada como um tesouro. Ele mostrava, beijava e repetia: “mia figlia, mia figlia. Vive in Brasile. Bahia”. Não tinha como não entender, né? Então ficamos naquele papo de loucos. “Ahh sua filha. Bonita. Brasil. Legal!”.” Si, Si”, repetia o homem, animadíssimo. Lá fora a chuva finalmente parecia diminuir. Deda me olhava em desespero e continuava a falar entre os dentes: “Vamos embora, pelo amor de Deus”, repetia. Eu me levantei e disse em meu perfeito italiano, “Andiamo al treno”. O sorriso do homem desapareceu, mas ele sabia que tínhamos que ir. Agradecemos e eu estiquei a mão para cumprimentá-lo. Ele puxou minha mão e me deu dois beijos estalados, um em cada bochecha. Deda imediatamente saiu em fuga discreta em direção à porta, mas não conseguiu fugir de seu destino. O pobre velho puxou-a para si e ao tentar dar os dois beijos no capricho ela se esquivou, discretamente (segundo ela) e ele acabou beijando sua testa. Infelizmente para ela, ele estava muito empolgado e depois de marcar sua testa com a mais pura saliva italiana ele se afasta, mas não muito, e demora alguns instantes até que se dá conta: um pequeno fio de saliva grossa se estendeu e eu pensei que Deda fosse desmaiar! Aquela baba nojenta unindo-a ao simpático e imundo sapateiro por fração de segundo parecia paralisá-la. Até que ele percebeu que, apesar de muito sutil, o fio não se desfaria com tanta facilidade, e meteu o mãozão negro desvencilhando-se da baba desconcertante. O pior foi ver o restinho daquele fio quase imperceptível se descolar da mão engraxada e criar uma linha úmida no rosto de minha amiga. Ela levou a mão à boca desesperada, mas não quis limpar o rosto com receio de ofender nosso estranho anfitrião.
Saímos correndo dali e eu não conseguia, e nem tentava, segurar o riso. Débora retirou um lencinho do bolso e esfregou freneticamente a testa, que quase mudou de cor. Mais adiante parou, comprou uma garrafa de água e passou a limpar o rosto com o lencinho umedecido em água mineral. Segundo ela, nem mesmo toda aquela lavação consegui diminuir a sensação da saliva em seu rosto. Desculpe-me amiga se estiver lendo isso..mas foi HILÁRIO!
Chegamos à estação às 5:50h e havia um trem parado, já esperando pelos passageiros. Que sorte! Pensamos.
Não poderíamos estar mais enganadas...
Não poderíamos estar mais enganadas...

Aiaiaiai! Não me aguento com essas histórias, Dé! Morro de rir...Coitada da Débora! Que situação, eih?!
ResponderExcluir...olá!...peguei a conversa pela metade...rsrs...mas, q diferente a sua temática do blog..."andanças" pelo mundo...oh..inveja boa...em poder conhecer o mundo...
ResponderExcluirSucessos e boa semana!
felisjunior.blogspot.com/
Nath, o que seria de minhas histórias sem esses micos, não é verdade??rs Bjs
ResponderExcluirOlá Feliz! Seja bem-vindo! Eu tive a sorte de conhecer pessoas e lugares incríveis, mas o que fica são as aventuras. Se vc quiser, mesmo tendo pego a "conversa pela metade"..o blog está aí...cheinho de outras histórias para vc ler e, quem sabe até, se divertir. Um abraço!
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