No dia seguinte lá estávamos nós, cedinho, no Termini. Como iríamos passar apenas 10 horas fora de casa (de 8h às 18h) e pretendíamos andar muito, não levamos nada nas mãos além de uma sacola com uma garrafa d'água e dois sanduíches. Débora levou no bolso algum dinheiro para o almoço e nossas passagens de volta. O calor senegalês não impediria nossa empreitada.
A viagem de 2 horas de trem foi perfeita. O trem cortava a linda região da Umbria, com paisagens de tirar o fôlego. Chegamos à estação e nada nos lembrava as imagens que tínhamos visto da cidade. Foi quando descobrimos que, na verdade, a cidade de Assis ficava no alto da montanha bem atrás de nós. A visão era deslumbrante. Inacreditável que tenham conseguido manter toda a atmosfera medieval da cidade. A Basílica podia ser vista de muito longe. As ruas eram de pedra, a subida, à pé ou num pequeno e único ônibus, era íngreme e interminável. Diferente de tantas outras cidades onde há romarias religiosas, os visitantes de Assis eram, em sua grande maioria, jovens. Todos desceram do trem e começaram a vencer a distância até o alto, à pé. Animadas, lá fomos nós, seguindo o grupo.
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| Paisagem na janela..do trem. A Umbria é uma das regiões mais belas da Itália. |
Chegar lá em cima era um feito heróico. Parecia o cenário de um filme de época. Centenas de turistas seguiam quase que em fila indiana para entrar na igreja. Nos arredores pequenas casas feitas de pedra vendiam souvenirs e quinquilharias. Por algum motivo que desconheço, o grande “lance” da cidade eram os sinos. As lojas tinham em sua entrada dezenas deles. Todos os tipos e tamanhos. Os sons se misturavam ao falatório, e todo mundo “testava” o sino antes de comprar (ou mesmo quando não tinha intenção de comprá-los dava a sua badalada..rs). A confusão era total, mas parecia fazer parte da rotina do povo de lá. Ninguém ligava praquele blem blem blem contínuo.
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| No alto da colina, Assis. Irretocada, desde a Idade Média. |
Andamos a manhã toda, comemos os sanduíches que tínhamos levado e continuamos explorando as ruelas da cidade até que, por volta das 4 da tarde, o inevitável aconteceu. Eu precisava fazer xixi (bem, eu poderia ter dito alguns eufemismos básicos e politicamente corretos, mas nada como a objetividade). Como a cidade não tinha um padrão comercial convencional, ou seja nem um Mc Donalds por perto, começamos a procurar um banheiro público (existem muitos na Itália, graças a antiga prática das casas de banho na antiguidade). Subimos, descemos, viramos e ..nada. Perguntamos, pedimos, jogamos charme e... nem um peniquinho sequer. Todos nós sabemos que a vontade de ir ao banheiro tem algumas etapas básicas:
- a primeira é super tranqüila. Você pensa “melhor procurar um banheiro, só por desencargo de consciência”... a vontade nem é tão grande mas melhor prevenir do que remediar.
- depois de um tempo procurando um banheiro você já começa a se culpar: “porque eu fui beber água hoje? Não podia ter comido aquele sanduíche a seco?”. A vontade aumentou um pouco mas você ainda está conseguindo raciocinar.
- depois de 45 minutos procurando um banheiro limpo você se dá conta que isso é luxo e pensa “qualquer latrina serve, só preciso de um local com paredes e um buraco no chão”. Esta etapa é o limiar entre a decência e o total desespero. A partir daí você começa a lembrar de tudo o que bebeu nas últimas 24h.
- e finalmente: O horror! O horror! essa é a fase em que pensar já é um problema. Você amaldiçoa até o descongestionante que pingou no nariz. Já está andando meio de lado e quando pára pra pedir informação já não consegue ficar parado. É uma mistura de dança com convulsão nervosa. Já viu alguém com muita, mas muita vontade de ir ao banheiro pedindo informação na hora de total desespero? É impossível manter as mãos paradas. A gente mexe os dedos, tira o peso do corpo de um pé e põe no outro, tenta se concentrar no que está falando mas só pensa em achar um banheiro, que nem precisa ser limpo. Fica rezando inconscientemente pra ouvir o interlocutor dizer “Si. Si. Si!”, na hora em que você pergunta se ele sabe de algum banheiro, e quando ouve o “No” (som quase universal que significa “você está fu$%@#!”) tem vontade de chorar.
Bom, a etapa anterior é a última chance que você tem de sair dessa situação com dignidade.
Antes de continuar, um adendo importantíssimo: Na Itália a cada esquina que você passa tem uma fonte. Cada lugar onde se cavou procurando uma ruína histórica, achou-se um foco de água limpa e cristalina. Não é brincadeira. Agora imagine: você está nos estertores do controle muscular de sua bexiga e precisa caminhar por entre fontes, laguinhos e chafarizes; e todos, TODOS fazendo aquele barulhinho típico... de fontes, laguinhos e chafarizes. Uma verdadeira tortura chinesa, ou italiana.
Estamos nós andando, quase correndo, em nossa busca frenética quando passamos por uma praça. Linda, cheia de fontes borbulhantes e ..lojinhas de venda de sino. Eu já nem conseguia falar. A impressão que eu tinha é que se eu usasse meu cérebro para qualquer atividade que não fosse o controle total de minha bexiga, eu sucumbiria. Já estava na fase da dor e da agonia absoluta. E foi aí que surgiu na Débora o desejo doentio e incontido de ...tocar um sino. Eu não conseguia acreditar, eu em plena agonia e ela queria parar e tocar um sino. Eu pedi, supliquei mas nada conseguia demove-la da idéia de jirico. Ela dizia “só um pequenininho. Um instantinho só”. E sem esperar qualquer acolhimento de minha parte, parou em frente a loja e meteu a mão no balado. O sino era o menor ali exposto. Pequeno mesmo. Um palmo de sino. Mas quando ela o tocou o som reverberou imponente e repetitivo praça afora, tão alto quanto um sino de catedral em dia de missa.
Não bastasse a vergonha de chamar para si toda a atenção, ela olha pra mim e faz a única coisa que não poderia ter feito: Desaba em gargalhadas. Uma crise de riso dantesca. Eu juro que tentei. Tentei não rir, tentei pensar em outra coisa, tentei olhar pro outro lado... Acho que foi o barulhinho da fonte. Toda a minha força de vontade em tentar evitar o mico foi em vão.
Era tarde demais. Já não tinha controle algum. Era absolutamente involuntário. Nunca pensei que coubesse tanto líquido dentro do corpo humano. Juro. Eu queria parar e não conseguia. Eu olhava e não acreditava. Nem parecia que era eu a responsável por aquele derrame ladeira abaixo. Acredito que deva ter sido algum tipo de experiência extra-corpórea. Só pode ser. A Débora olhava pra mim com os olhos arregalados e repetia freneticamente, tentando em vão manter a voz baixa: Para! Para! Para!.. Repetia ela entre os dentes.
Ahhh se eu pudesse....
...continua


Dê, não creio no que li!!! Tu fez xixi na roupa mesmo? Ai, ai, ai! E pra voltar depois no trem toda mijada? Não queria ser sua companhia naquele trem de volta... kkkkkkkkkkkk
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