quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A volta das boêmias

Fomos as duas rezando fervorosamente durante todo o trajeto até Napole.  Aquilo não podia estar acontecendo. A estação regional Circumvesuviana ficava a apenas alguns quarteirões do píer por isso precisávamos estar preparadas para voltar à maratona. O trem parou na estação às 21:25h em ponto e, ao abrir as portas, acredito que nós fomos as primeiras a desembarcar e sair correndo.  Seria difícil, com certeza, mas não impossível. Assim como o trem atrasara 15 minutos a balsa poderia sair com atraso também, não é mesmo? Pois é. Poderia...

O porto de Napole, visto de dentro da balsa.
Chegamos à beira do píer a tempo de ouvir o apito longo, grave e triste e ver a balsa, lotada de carros e pessoas, toda iluminada, deixando vagarosamente o cais. Estava tão perto que dava a impressão de que era só saltar e conseguiríamos alcançá-la... eu peguei na mão da Débora e disse “Pula!”. Ela me segurou com tanta força que quase caí. “Tá doida?!”. Estava tão pertinho, gente... uns 2 ou 3 metros só. Se fosse num filme, vocês hão de concordar comigo que seria uma cena antológica. O supra-sumo do romance: o barco se afastando na calada da noite, o mocinho pulando e por muito pouco alcançaria o barco, correria para os braços da amada tacando-lhe um beijo cinematográfico.. e tudo isso... na Itália, gente! Bem, mas voltando à realidade, era EU ali, né? Lógico que eu não alcançaria a porreta da balsa e ainda cairia na água com o maior estardalhaço, levantando água pra todos os lados como uma beluga ensandecida, provocando frouxos de riso nos transeuntes e embarcados. 

Ficamos as duas ali, paradas. Olhando a bendita balsa se afastar, no mais absoluto silêncio.
O porto de Napole visto do alto...bemmmm do alto :)
“E agora?”. Aquela não era a primeira vez em nossa viagem (ainda no início) que nos fazíamos aquela pergunta, mas foi, com certeza, uma das mais trágicas. Fomos direto falar com o segurança, o cara que controla os bilhetes de quem entra no barco. Tudo bem.. vamos na próxima, pensamos. E então, duas boas surpresas. A primeira: o bilhete só vale para o horário em que foi comprado; a segunda e mais desesperadora: a próxima balsa sairia às 7 da manhã. Ahhh a alegria de viajar sem destino... abençoados aqueles que inventaram essa irreverente forma de conhecer o mundo. BANDO DE CORNOS! Eles deveriam nos avisar dessas coisas nos blogs e sites de dicas de viagem. Ninguém e nada nos preparou para aquilo: teríamos que passar a noite no banco do cais. No cais, que como toda região de porto da GALÁXIA, era também uma conhecida área de baixo meretrício. Nós duas, sem um puto no bolso (nós tínhamos trazido um pouco mais de grana, mas não esperávamos ir à Pompéia, lembram-se?), sem passaportes (quem disse que as tongas aprenderam com a experiência de Assis??), dormindo num banco do cais do porto. O bom de ser militar é que pensei logo: “vamos fazer uma escalinha de serviço para o quarto-de-hora”, como dizemos na caserna. Revezaríamos na vigília, eu e minha companheira de desdita..rs. Mas mesmo achando que isso seria difícil para nós, tivemos uma notícia que até hoje reluto em definir como sendo boa ou ruim: ninguém pode ficar dentro do cais à noite, avisou-nos o guardinha. Ahhh.... nada é tão ruim que não possa piorar. Que ditado sábio. 

Agora, sim! Perdemos o barco; não tínhamos grana para comprar passagens pro próximo; e teríamos que vagar pelas ruas do baixo meretrício de Napole a noite toda, duas boêmias desavisadas, vestindo camiseta e short.  Sabe o que acontece quando você se dá conta de uma situação desesperadora dessas? Alguns choram, outros desandam a falar, outros perdem o ar.. no meu caso (óbvio!) deu vontade de fazer xixi. De novo não, pensei. A Débora sugeriu que andássemos pelas redondezas e procurássemos um bar ou algo assim. E foi sairmos do cais e avistarmos uma multidão. Isso mesmo, uma multidão! Apesar de todos os pezares, dizem que Deus sempre ajuda aos bêbados, às crianças e aos loucos (nosso caso): poderíamos ter que passar a noite toda em claro, mas pelo menos teríamos companhia. Lá estávamos nós, acreditem, bem no meio da festa de São Genaro!  

Continua...

4 comentários:

  1. Isso é covardia, quer me matar de curiosidade?????? Deixar as cenas do próximo capítulo para outro capítulo mesmo??????? Não vale...rsrsrsrs

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    1. Martinha, se não for em capítulos..ninguém vem ler de novo rs bjs

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  2. Mulher... ai se eu te pego, garota...
    Bato n'ocê!

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