sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Strogonof de... codorna?!

Ao sair na rua senti o bafo quente do calor indiano, seco e infinitamente mais abafado do que o ar fresco da madrugada, quando chegamos. Nem quero saber quantos graus faz. O psicológico pode me afetar, penso.

Antes de mais delongas, um detalhe muito importante, meu queridos amigos leitores: Para comer alguma coisa na Índia é necessário, primeiramente, que a fome esteja acompanhada de uma boa dose de coragem. E das grandes! O lugar é tão sujo e tão cheio de gente que desanima o mais faminto dos peregrinos. O cheiro de curry parece ter sido usado como um “Bom Ar” urbano. Dito isso, prossigamos...

Andamos um bom tempo no meio do povaréu suado e apressado e não vi um só supermercado. Supermercado? Ok, vou simplificar: não vi um só mercado, quitanda, vendinha.. nada. Pergunto ao Santosh se o mercado ainda está longe e ele responde: “estamos quase lá”. De repente, depois de uma das 356 esquinas deparo-me com a maior feira ao ar livre que já vi. Espalhados por todo o lado estavam panos, colocados no chão, contendo os legumes e verduras vendidos pelos produtores locais. Mas eu não conseguia reconhecer nenhum deles. Nada me parecia familiar. E foi então que observei um detalhe: os legumes, vegetais e verduras eram os mesmos que eu conhecia, mas muito menores que os que eu já tinha visto. A cebola era do tamanho de um limão. As batatas então eram ainda menores. O solo aqui não deve ajudar, pensei. Mas eu precisava de cebolas, e de tomates e de um monte outras coisas. Eu queria fazer um strogonof. Definitivamente, eu não iria comer nada que não tivesse sido preparado por mim. E não cozinharia nada que não tivesse sido lavado umas mil vezes. Isso era certo. 

Escolhidas as miudezas, eu precisava do peito de frango. Aviso ao meu guia/amigo/nativo e ele me leva ao local onde são vendidas as carnes (não a de vaca, é claro). Eu espero na fila, de umas 8 ou 9 pessoas (tudo na Índia tem fila) e quando chega a minha vez pergunto pelo “chicken breast”*. O homem me aponta umas carninhas muito brancas e pequeninas e eu olho para ele como se explicasse um problema matemático a um analfabeto: “I need chicken breasts”*. Ele aponta pras tais carninhas sem-graça e fala algo que não consigo compreender (será híndi?). “Not quails, I need chicken*”, repito quase gritando (vai ver ele não me ouvia bem no meio daquela balbúrdia toda, penso). Santosh se mete no papo, já irritado com a demora. Fala algo em híndi e o cara embrulha duas das tais carninhas sem-graça. Eu me viro pro Santosh já nervosa e repito mais uma vez que não quero codornas, preciso de peito de frango! Ele olha pra mim e, para minha surpresa, diz que aquilo era peito de frango, e não existiam maiores que aqueles! Que diabo de galinha é essa?! Penso..mas não falo. E continua..”what´s quail?!”. Sabe quando leva um tempo para você processar uma informação? Eu fiquei ali parada, olhando pra ele, tentando achar uma forma de dizer a ele tudo o que se passava na minha cabeça: 
Primeiro - que aquilo não PODIA ser peito de frango, era pequeno demais; 

Segundo - que se aquilo realmente era peito de frango, eu iria precisar de uns 10, para fazer o almoço de três pessoas; 

Terceiro - como diabo eu iria explicar a ele o que era uma codorna?! 

Depois de árdua batalha pelos 10 peitos de frango (disfarçado de codorna), e os minúsculos legumes, fizemos todo o caminho de volta ao apartamento. Ele ansioso por provar o tal “strogonof”, e eu rezando pra Débora ter terminado a faxina, assim eu não teria que me aventurar na terra do mofo adormecido.

*Chicken breast – peito de frango
*I need chicken breasts – Eu preciso de peitos de frango
*Not quails, I need chicken – Codornas não, preciso de frango

3 comentários:

  1. kkkkkkkkkkk...quase vi vc imitar uma galinha para ser melhor entendida!

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  2. faltou muito pouco, amiga..rs O problema é que tudo o que vc diz ou a maneira como age num país onde os costumes são TÃO diferentes dos seus, pode e SERÁ usado contra vc rs rs

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  3. Eu ia morrer de fome né amiga, porque eu não cozinho....NADA!!!! Acho que vou ter que tirar a Índia do meu roteiro ou então levar muitos enlatados para garantir a minha sobrevivência....rsrsrsrs

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